Nota Executiva – Infraestrutura energética como base da competitividade brasileira

Contextualização

O debate sobre o setor energético brasileiro deixou de ser apenas uma discussão sobre geração de eletricidade. Ele passou a ocupar o centro da agenda de competitividade, segurança econômica e transição energética. O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, com forte participação de hidrelétricas, eólicas, solares e biomassa. Esse é um ativo estratégico. No entanto, possuir energia limpa não é suficiente para transformar o país em protagonista da nova economia de baixo carbono. É preciso que essa energia seja acessível, confiável, transmissível e integrada a uma política de desenvolvimento produtivo.

O Plano Decenal de Expansão de Energia 2034 (PDE), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) com apoio do Ministério de Minas e Energia, estima cerca de R$ 3,2 trilhões em investimentos no setor energético para sustentar o crescimento da oferta no atendimento à demanda doméstica e também às oportunidades de exportação. O plano prevê aumento de aproximadamente 25% na oferta interna de energia ao longo de dez anos, dentro de uma visão integrada entre eletricidade, combustíveis, infraestrutura e novos usos energéticos.

Esse ponto é central. A transição energética não será determinada apenas pela capacidade de gerar energia renovável. Ela dependerá da capacidade de transformar energia limpa em vantagem competitiva para a indústria, para os serviços digitais, para a produção de combustíveis sustentáveis e para cadeias intensivas em eletricidade. O Brasil tem potencial, mas esse potencial precisa ser convertido em infraestrutura, regulação, planejamento e sinal econômico adequado.

O custo elevado da energia elétrica para o consumidor final

Um dos maiores paradoxos do setor elétrico brasileiro é que o país dispõe de matriz relativamente limpa e abundante, mas entrega energia cara para o consumidor final. Essa diferença entre o custo potencial da energia e o valor efetivamente pago na conta de luz decorre de uma combinação de fatores: custos de geração, transmissão e distribuição, encargos setoriais, subsídios cruzados, tributos, perdas técnicas e não técnicas, judicializações, inadimplência e decisões de política pública que acabam sendo financiadas pela tarifa.

A própria ANEEL ressalta que a tarifa considera despesas desde a geração até a entrega da energia à unidade consumidora, incluindo infraestrutura de geração, transmissão, distribuição e componentes econômicos voltados à modicidade tarifária e à sinalização ao mercado. Além disso, a conta de luz incorpora encargos e tributos definidos em lei, que não são criados pela agência reguladora, mas pressionam o valor final pago por famílias e empresas.

Esse custo elevado tem efeitos macroeconômicos relevantes. Para as famílias, reduz renda disponível e pressiona o orçamento doméstico, especialmente em grupos de menor renda, nos quais energia, alimentação e transporte ocupam parcela maior do consumo. Para as empresas, eleva custos operacionais, reduz margens, diminui competitividade e compromete decisões de investimento. Em setores eletrointensivos, como metalurgia, química, fertilizantes, papel e celulose, mineração, processamento de dados e produção de combustíveis sustentáveis, energia cara pode definir se um projeto será viável no Brasil ou deslocado para outro país.

Há também um problema de qualidade do sinal econômico. Quando a tarifa carrega muitos custos que não estão diretamente ligados ao consumo eficiente de energia, ela deixa de refletir apenas o custo técnico do sistema e passa a funcionar como instrumento de financiamento de múltiplas políticas públicas. Algumas dessas políticas podem ter mérito social, regional ou ambiental. O problema é que, quando financiadas de forma pouco transparente pela tarifa, reduzem a competitividade geral da economia e tornam mais difícil identificar quem paga, quem se beneficia e qual o custo real de cada decisão.

Portanto, discutir energia barata não significa defender artificialismo tarifário. Ao contrário, significa defender racionalidade econômica, previsibilidade regulatória e melhor alocação dos custos. A modicidade tarifária sustentável depende de expansão eficiente da oferta, redução de perdas, revisão da estrutura de encargos, melhor planejamento da transmissão, modernização tarifária e maior transparência sobre subsídios. Energia barata por intervenção pontual tende a gerar desequilíbrios futuros. Energia competitiva por eficiência sistêmica cria desenvolvimento de longo prazo.

Transmissão como gargalo da nova economia

A nova realidade econômica brasileira exige uma infraestrutura de transmissão mais robusta, mais inteligente e mais bem distribuída territorialmente. O crescimento das fontes renováveis, especialmente eólica e solar, alterou a geografia da geração elétrica no Brasil. A energia passou a ser produzida em maior escala em regiões distantes dos principais centros de carga e, muitas vezes, em horários que não coincidem perfeitamente com o pico de consumo. Isso exige redes capazes de escoar energia, reduzir congestionamentos, integrar regiões e aumentar a flexibilidade operacional do sistema.

O PDE 2034 destaca a necessidade de expansão da transmissão para atender novas demandas, inclusive associadas a data centers e plantas de hidrogênio verde. Estimativas divulgadas a partir do plano indicam necessidade de cerca de R$ 128,6 bilhões em investimentos em transmissão até 2034, com expansão relevante de linhas e subestações.

Esse investimento não deve ser visto apenas como obra de infraestrutura elétrica. Ele é uma condição para o desenvolvimento industrial. Sem transmissão adequada, o país pode conviver simultaneamente com excesso de geração renovável em determinadas regiões e restrição de atendimento em outras. Essa assimetria gera desperdício econômico, aumenta custos operacionais e reduz a capacidade de o Brasil transformar sua matriz renovável em vantagem competitiva.

A expansão da transmissão também precisa dialogar com a localização dos novos investimentos produtivos. Data centers, plantas de hidrogênio e amônia verde, produção de aço de baixo carbono, refinarias de biocombustíveis avançados e polos industriais eletrointensivos não se instalam apenas onde há energia potencialmente disponível. Eles precisam de conexão segura, estabilidade, redundância, licenciamento previsível, acesso logístico, água, telecomunicações, mão de obra e segurança jurídica. A transmissão, portanto, deve ser pensada como parte de uma política territorial de desenvolvimento econômico.

Esse é um ponto especialmente importante para estados com vocação logística e industrial. A energia renovável precisa chegar aos portos, aos corredores industriais e aos polos de exportação. Caso contrário, o país corre o risco de produzir energia limpa sem conseguir agregar valor internamente. A transição energética não será vencida apenas por quem gera eletricidade renovável, mas por quem consegue conectar essa eletricidade a cadeias produtivas globais.

Segurança do suprimento, risco de apagões e atração de data centers

A estabilidade do fornecimento tornou-se um ativo econômico estratégico. Em uma economia digitalizada, interrupções de energia não afetam apenas o conforto dos consumidores. Elas comprometem linhas de produção, cadeias logísticas, hospitais, sistemas financeiros, telecomunicações, serviços públicos, comércio eletrônico e processamento de dados. Para setores como data centers, a segurança energética é um critério central de localização.

Data centers demandam energia contínua, previsível, escalável e de alta qualidade. Além disso, grandes operadores globais buscam, cada vez mais, acesso a energia renovável para cumprir metas de descarbonização. O Brasil pode combinar matriz limpa, disponibilidade territorial e posição geográfica relevante. Mas essa oportunidade depende de confiabilidade sistêmica. Energia renovável abundante, sem estabilidade, não é suficiente para atrair investimentos intensivos em dados.

Nesse contexto, o Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 (LRCAP) representa um avanço institucional relevante. Segundo a EPE, o certame foi desenhado para ampliar a segurança energética e introduzir uma forma de contratação voltada à potência disponível, e não apenas à energia gerada. Em março de 2026, a EPE divulgou resultados do LRCAP voltados a usinas termelétricas a gás natural, carvão, hidrelétricas, óleo e biodiesel, com o objetivo de complementar a segurança do sistema.

A lógica da reserva de capacidade é importante porque o sistema elétrico moderno precisa remunerar atributos diferentes. Não basta contratar megawatts-hora. É necessário garantir potência firme, flexibilidade, resposta rápida, capacidade de atendimento nos horários críticos e segurança em situações de estresse hidrológico ou variabilidade renovável. Em sistemas com maior participação de fontes intermitentes, como solar e eólica, esse tipo de mecanismo ganha relevância.

O mesmo raciocínio vale para os sistemas de armazenamento. Em novembro de 2025, o Ministério de Minas e Energia abriu consulta pública para o primeiro leilão de baterias do país, dentro do LRCAP 2026 Armazenamento, com o objetivo de ampliar a estabilidade do sistema, aproveitar melhor fontes renováveis e impulsionar inovação tecnológica no setor.

O armazenamento é uma peça essencial para a nova arquitetura energética. Baterias e outras tecnologias de armazenamento permitem deslocar energia no tempo, reduzir cortes de geração renovável, atender picos de demanda, oferecer serviços ancilares, melhorar a qualidade da rede e reduzir a necessidade de acionamento de fontes mais caras ou mais emissoras em determinados momentos. Elas não substituem todo o parque de geração firme, mas ampliam a flexibilidade do sistema.

A combinação entre reserva de capacidade e armazenamento pode reduzir o risco de apagões, aumentar a confiabilidade do sistema e melhorar o ambiente de negócios para setores que dependem de fornecimento contínuo. Entretanto, esse desenho exige cuidado regulatório. A contratação deve buscar segurança, mas também modicidade tarifária. Se o sistema contratar capacidade em excesso, sem planejamento integrado, a conta será repassada ao consumidor. Se contratar capacidade insuficiente, o país ficará exposto a riscos operacionais. O equilíbrio entre segurança e custo é o desafio central.

Estabilização energética e investimento produtivo

A estrutura de estabilização energética não deve ser pensada isoladamente. Ela precisa estar vinculada a uma estratégia de desenvolvimento produtivo. O Brasil não deve investir em transmissão, reserva de capacidade e armazenamento apenas para corrigir fragilidades do sistema atual. Deve fazer isso para criar as condições da economia futura.

Essa diferença é fundamental. Uma política energética defensiva busca evitar apagões e reduzir crises. Uma política energética estratégica busca, além disso, atrair investimentos, criar novas cadeias produtivas, ampliar exportações, gerar empregos qualificados e posicionar o país na transição energética global. O Brasil precisa das duas dimensões, mas a segunda é a que pode transformar o setor elétrico em vetor de desenvolvimento.

A energia deve ser tratada como infraestrutura de competitividade. Isso significa que decisões sobre expansão de rede, localização de subestações, contratação de potência, armazenamento, licenciamento e conexão devem dialogar com projetos industriais e tecnológicos. Não basta saber onde a energia será gerada. É preciso saber onde ela será consumida, por quais setores, com qual intensidade, em quais horários, com qual impacto sobre emprego, arrecadação, exportações e inovação.

Esse planejamento integrado é especialmente relevante porque a transição energética está criando uma nova geografia industrial. Países com energia limpa, barata e confiável tendem a ganhar vantagem em cadeias nas quais a pegada de carbono será cada vez mais importante. Fertilizantes verdes, aço verde, combustíveis sustentáveis de aviação, hidrogênio, amônia, data centers e créditos de carbono dependerão de energia renovável e rastreável, mas também de infraestrutura física, capacidade regulatória e previsibilidade contratual.

Sem esse alinhamento, o Brasil pode perder uma janela histórica. Pode continuar exportando energia incorporada em produtos primários ou semimanufaturados, enquanto outros países capturam as etapas de maior valor agregado. Com coordenação, pode usar a matriz renovável como base para uma nova política industrial verde, conectada ao comércio internacional, à segurança alimentar, à digitalização e à descarbonização.

Protagonismo brasileiro na transição energética

O Brasil reúne condições raras. Tem matriz elétrica majoritariamente renovável, grande potencial eólico e solar, base hidrelétrica relevante, biomassa, experiência em biocombustíveis, disponibilidade de áreas, setor agroindustrial sofisticado, ativos logísticos e capacidade de produção de commodities estratégicas. Esses fatores colocam o país em posição favorável para participar da transição energética mundial não apenas como fornecedor de energia, mas como produtor de bens e serviços de baixo carbono.

Fertilizantes verdes são um exemplo claro. A produção de amônia verde pode reduzir a dependência externa de insumos agrícolas, aumentar a segurança alimentar e criar uma ponte entre energia renovável e agronegócio. Aço verde é outro vetor importante, especialmente diante da tendência de maior exigência ambiental em mercados internacionais. O mesmo vale para SAF, combustível sustentável de aviação, cuja demanda tende a crescer com as metas de descarbonização do transporte aéreo.

Data centers representam uma frente complementar. A inteligência artificial, a computação em nuvem e a digitalização ampliam a demanda mundial por capacidade de processamento. Países capazes de oferecer energia limpa, estável e competitiva podem atrair investimentos relevantes. No entanto, esse mercado é extremamente sensível à confiabilidade energética, à conectividade digital, à segurança regulatória e à rapidez de licenciamento.

Os créditos de carbono também podem compor essa agenda, desde que sejam tratados com rigor técnico e integridade ambiental. O Brasil possui potencial em conservação, restauração, agricultura de baixo carbono, bioenergia e soluções baseadas na natureza. Mas esse potencial só se converte em valor econômico quando há governança, mensuração confiável, rastreabilidade e credibilidade institucional.

O ponto comum entre todas essas oportunidades é que nenhuma delas prospera apenas pela existência de recursos naturais. A vantagem brasileira precisa ser construída. Energia limpa é condição inicial. Infraestrutura, estabilidade, regulação e coordenação produtiva são os fatores que transformam essa condição em liderança econômica.

Impactos macroeconômicos

A modernização do setor energético brasileiro tem efeitos macroeconômicos amplos. No curto prazo, investimentos em transmissão, armazenamento, geração firme e infraestrutura associada elevam a formação bruta de capital fixo, movimentam cadeias de engenharia, construção, equipamentos, serviços especializados e financiamento de longo prazo. Também podem ampliar a demanda por mão de obra qualificada e estimular inovação tecnológica.

No médio e longo prazo, o impacto mais relevante está na produtividade. Energia confiável e competitiva reduz custos de produção, diminui perdas, melhora previsibilidade operacional e amplia a atratividade de projetos industriais. Em um país que convive há décadas com baixo crescimento da produtividade, a infraestrutura energética pode funcionar como um dos pilares de uma agenda mais ampla de competitividade.

Há também efeitos sobre inflação. Energia elétrica é componente direto dos índices de preços e insumo indireto de praticamente toda a economia. Quando a tarifa sobe de forma persistente, ela pressiona o custo de vida e os custos empresariais. Por outro lado, investimentos mal desenhados também podem elevar encargos futuros e pressionar a conta de luz. Por isso, a expansão do sistema precisa combinar segurança com eficiência econômica.

Do ponto de vista externo, a energia pode fortalecer a inserção internacional do Brasil. Produtos com menor intensidade de carbono tendem a ganhar relevância em cadeias globais sujeitas a exigências ambientais crescentes. Se o Brasil conseguir oferecer energia limpa, rastreável e competitiva, poderá ampliar exportações de maior valor agregado e reduzir vulnerabilidades associadas à importação de insumos estratégicos, como fertilizantes.

O desafio fiscal e regulatório também deve ser considerado. Muitos investimentos exigem marcos contratuais claros, estabilidade regulatória, previsibilidade de remuneração e capacidade de financiamento. Em um ambiente de juros elevados e restrição fiscal, projetos de infraestrutura precisam reduzir risco percebido para atrair capital privado. Segurança jurídica, planejamento e qualidade regulatória não são detalhes institucionais. São componentes do custo de capital.

Conclusão

O setor energético brasileiro está diante de uma mudança estrutural. A questão central não é apenas produzir mais energia, mas produzir, transmitir, armazenar e entregar energia com custo competitivo, estabilidade e capacidade de sustentar uma nova etapa de desenvolvimento econômico.

A conta de luz elevada limita renda das famílias, reduz competitividade das empresas e enfraquece a capacidade de o Brasil transformar sua matriz renovável em vantagem produtiva. A expansão da transmissão é indispensável para conectar novas fontes de geração aos centros de consumo e aos polos industriais. A reserva de capacidade e os sistemas de armazenamento são instrumentos essenciais para aumentar a segurança do suprimento, reduzir riscos de apagões e viabilizar investimentos intensivos em energia contínua, como data centers.

Mas a agenda não pode parar na segurança elétrica. A infraestrutura energética precisa ser pensada em conjunto com uma estratégia produtiva. Fertilizantes verdes, aço verde, SAF, hidrogênio, amônia, data centers e créditos de carbono representam oportunidades concretas, mas dependem de energia limpa, acessível, estável, rastreável e conectada.

O Brasil tem uma das melhores bases naturais do mundo para liderar a transição energética. O que ainda precisa construir é a base institucional, regulatória e infraestrutural para transformar esse potencial em competitividade. A transição energética será uma disputa por capital, tecnologia, cadeias produtivas e confiança. Nesse ambiente, vencerá quem conseguir combinar energia limpa com planejamento, estabilidade e capacidade de execução.

Para conhecer o Plano Decenal de Expansão de Energia 2034 consulte aqui.

Autor

Felipe Storch Damasceno

Economista-Chefe do IBEF-ES

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