Produtividade e escassez de mão de obra no Estado

Artigo publicado como integrante do CQC de Economia e Finanças.

Nas últimas décadas, a produtividade se tornou um dos principais determinantes para o crescimento econômico de longo prazo. Economias mais produtivas conseguem produzir mais bens e serviços com a mesma quantidade de recursos, elevando renda, competitividade e capacidade de investimento.

Entretanto, um fenômeno paradoxal pode surgir: a escassez de mão de obra. Nesse cenário, empresas encontram dificuldades para reter e contratar novos trabalhadores, o que passa a limitar a expansão dos serviços e produção.

Esse fenômeno tem se tornado cada vez mais presente no estado do Espírito Santo, onde a combinação de baixo desemprego, elevada rotatividade e mudanças nos incentivos do mercado de trabalho vem criando desafios relevantes para produtividade das empresas.

Nesse contexto, o Espírito Santo vive um dos períodos de menor desemprego de sua história recente. Dados do IBGE mostram que a taxa de desocupação do estado atingiu cerca de 3,1% em 2025, o menor patamar desde o início de sua série histórica. Também no ano de 2025, o estado registrou saldo positivo de 13,8 mil empregos formais, segundo o novo Caged. Esse cenário revela um ponto importante: o desafio deixou de ser apenas gerar empregos, passou a ser encontrar trabalhadores disponíveis e qualificados.

Isto é, quando a oferta de trabalhadores disponíveis diminui, três efeitos econômicos relevantes podem ocorrer: dificuldade para expansão das empresas, aumento do custo de trabalho e redução da produtividade. Ademais, um problema adicional enfrentado por empresas é a alta rotatividade da força de trabalho. Ocasionando custos diretos, como recrutamento, seleção e treinamento, e indiretos, como a queda temporária de produtividade, erros operacionais e tempo de supervisão. 

Além disso, outro fator que vem sendo apontado por empresas é a dificuldade de formalização de trabalho. Em alguns casos, trabalhadores optam por não assinar a carteira para manter acesso a benefícios sociais ou programas de transferência de renda, visto que a renda líquida do trabalhador pode não aumentar significativamente ao aceitar um emprego formal. Esse fenômeno é conhecido na literatura econômica como “armadilha de benefícios”.

Outrossim, a oferta de trabalho regional pode ser afetada pelos pagamentos extraordinários de indenizações ou compensações econômicas. No Espírito Santo parte das regiões afetadas pelo rompimento das barragens de Mariana recebeu recursos vinculados à Fundação Renova. Do ponto de vista econômico, esse cenário pode produzir redução temporária da oferta de trabalho, maior seletividade dos trabalhadores e aumento do poder de barganha salarial.

Por fim, a escassez de mão de obra no Espírito Santo reflete, em parte, o dinamismo recente da economia capixaba. Entretanto, quando persistente, ela pode se transformar em um obstáculo ao aumento da produtividade e ao crescimento econômico. A solução para esse desafio passa por múltiplos caminhos: melhoria da qualificação profissional, redução da rotatividade, modernização das políticas de incentivo ao trabalho formal e maior investimento em tecnologia.

Autor

Gabriela Pessoti Chiabai

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