Para muitos, há a crença popular de que futebol, religião e política não se discutem. Com exceção do futebol que, de maneira geral, não exerce impacto direto sobre a filosofia de vida das pessoas, a religião e a política possuem dimensões capazes de moldar comportamentos, influenciar a forma como pensamos e consolidar valores. Dentro do aspecto liberal, pode parecer um contrassenso acreditar que seguir uma religião possa fazer sentido, porque, muitas vezes, ela parece doutrinar o que pode ou não ser feito. Surge, então, o questionamento: será que dá para ser liberal e cristão ao mesmo tempo sem ter conflito existencial?
Antes, é preciso uma definição breve do que é ser liberal, político e economicamente falando: é defender a liberdade individual, a livre iniciativa e a limitação do poder do Estado sobre a vida econômica e social. Do outro lado, ser cristão é seguir os ensinamentos de Jesus Cristo, buscando viver com fé, amor, justiça e compaixão.
Já dizia Cazuza: “ideologia, eu quero uma para viver”. Não por acaso, muitos encontram essa direção na religião, outros, na política. É comum entender que a religião dita regras, proíbe comportamentos, exige certas posturas. Assim, parece ser contrária à liberdade. Aqui, uma correção importante deve ser feita: essa interpretação ignora aspectos importantes da tradição cristã. Paulo, um dos apóstolos mais referenciados pelos cristãos, afirma, com autoridade, que “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém”. Essa máxima apresenta a ideia de liberdade associada à prudência e às consequências dos próprios atos. De maneira complementar, John Locke defende que “Onde não há lei, não há liberdade.”
Na mesma direção, os preceitos liberais definem que a liberdade não pode existir se não for exercida com a responsabilidade. Ao contrário da ideia popular, existem direitos inalienáveis, tanto defendidos por liberais, quanto pelos cristãos. “Não roubarás”, por exemplo, é uma defesa claríssima da propriedade privada alheia. “Não matarás”, diz respeito à defesa da vida. E Paulo, em suas cartas aos Coríntios, reforça a ideia de que a autonomia humana deve ser exercida com disciplina e consciência moral.
Ainda que a Igreja cristã tenha a figura de Deus como o centro da fé, há uma descentralização de autoridades, valorizando a família, comunidade e autoridades locais antes de estruturas centralizadas excessivas, como as primeiras comunidades cristãs, narradas por Lucas, em Atos dos Apóstolos. Assim como o liberalismo, a Bíblia apresenta críticas a abusos de poder estatal na figura de governantes, como os abusos do faraó, em Êxodo, ou Samuel, que alerta para um rei corrupto e desonesto, reforçando cautela contra poder concentrado.
Quando entendemos bases sólidas como responsabilidade e prosperidade, há ensinamentos bíblicos que valorizam tais condutas. Um deles é a parábola dos talentos, acreditando que a cada indivíduo é dada a habilidade de multiplicar seus dons, e há recompensa da boa administração e iniciativa.
Ainda falando de prosperidade, talvez a primeira crítica seja o dízimo, muitas vezes tratado como imposição da igreja. Também é preciso esclarecer um equívoco: em muitas igrejas cristãs, como a católica, o dízimo não é fruto de coerção, mas de doação voluntária dos membros da igreja, diferente do que acontece com os impostos, que, por serem obrigatórios, entram em conflito com a filosofia liberal.
Além disso, ambas as visões compartilham certa aproximação com a ideia de mérito. Não há privilégios, não há atalhos. De um lado, a prosperidade é alcançada por esforço e dedicação. Do outro, fé verdadeira se manifesta em obras, como já dizia Tiago: “A fé sem obras é morta”. A colheita, assim, é reflexo da disciplina durante a trajetória, tanto no cristianismo, quanto no liberalismo.
Outro ponto de assimilação é que outras ideologias políticas enfrentam o liberalismo ao apresentarem críticas fortíssimas às igrejas. Karl Marx via a religião como “ópio do povo”. Por outro lado, papas como João Paulo II e Leão XIII foram fortes críticos do sistema comunista e defensores da propriedade privada, fruto do trabalho do homem.
Embora cristianismo e liberalismo compartilhem diversos valores, há tensões entre eles. Muitos cristãos veem no liberalismo moderno um excesso de individualismo, enquanto alguns liberais criticam igrejas coercitivas e políticas coletivistas. Ainda assim, essas divergências não impedem a coexistência entre essas visões, sobretudo quando a liberdade é compreendida como um exercício consciente da autonomia, orientado por responsabilidade moral e respeito ao próximo.
Assim, o dilema moral e intelectual sobre a possibilidade de ser cristão e ser liberal de forma simultânea é facilmente respondido. Melhor: não apenas é possível, como é coerente e racional. A religião cristã e a vertente liberal compartilham valores importantes ao defenderem a vida e a propriedade. Sobretudo, quando a liberdade é compreendida não como ausência de limites, mas como exercício responsável da autonomia humana. Como já dizia a carta de Gálatas: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. Nesse sentido, liberdade e responsabilidade não se anulam; ao contrário, complementam-se como fundamentos essenciais da convivência humana.