Carta do Economista – Maio de 2026

Introdução

Maio de 2026 foi um mês importante para compreender a natureza da atual conjuntura econômica brasileira. Os dados divulgados ao longo do período mostraram uma economia ainda resiliente, com crescimento do PIB, mercado de trabalho positivo, setor externo robusto e sinais relevantes de dinamismo em alguns estados, como o Espírito Santo. Ao mesmo tempo, o mês também evidenciou fragilidades que limitam a capacidade de crescimento sustentado: inflação acima da meta, expectativas em deterioração, juros ainda elevados, volatilidade cambial e aumento da incerteza no comércio internacional.

Essa combinação revela um cenário de avanços e tensões. O Brasil continua demonstrando capacidade de crescer mesmo sob condições financeiras restritivas, mas esse crescimento ainda ocorre sobre bases vulneráveis. A atividade econômica responde à renda, ao emprego e ao desempenho de setores estratégicos, mas a inflação persistente reduz o espaço para uma política monetária mais estimulativa. Da mesma forma, o bom desempenho externo contribui para a estabilidade macroeconômica, mas a dependência de commodities e a crescente politização do comércio internacional impõem novos riscos às empresas e aos governos.

O ponto central da conjuntura é que o país voltou a se deparar com seus limites estruturais. Sempre que a economia ganha tração, reaparecem pressões inflacionárias, dificuldades fiscais, gargalos de produtividade e necessidade de juros elevados. Por isso, a leitura de maio não deve ser apenas a de um mês de bons ou maus indicadores, mas de um período que reforça a importância de uma agenda econômica mais consistente. Crescer é fundamental, mas crescer com estabilidade, previsibilidade, produtividade e capacidade de inserção internacional sofisticada é o verdadeiro desafio.

Para o Espírito Santo, esse cenário exige atenção especial. O estado apresenta vantagens relevantes em gestão pública, logística, comércio exterior, energia, indústria e ambiente de negócios. No entanto, a transformação dessas vantagens em desenvolvimento de longo prazo dependerá da capacidade de coordenar investimentos, infraestrutura, capital humano, inovação e integração com mercados globais. Em um mundo no qual câmbio, juros, tarifas, regulação e geopolítica estão cada vez mais conectados, a competitividade dependerá menos de vantagens isoladas e mais da capacidade institucional de responder com rapidez, estratégia e produtividade.

Atividade econômica

Maio trouxe uma informação importante para a leitura da economia brasileira: o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior, com alta nos três grandes setores da economia. A agropecuária avançou 2,0%, a indústria cresceu 1,0% e os serviços subiram 0,5%, segundo o IBGE. Pela ótica da demanda, a leitura também foi relevante, com consumo das famílias e investimento contribuindo para a expansão da atividade.

O resultado mostra uma economia mais resistente do que se imaginava diante de juros ainda elevados. A explicação passa por três canais principais. O primeiro é o mercado de trabalho, que ainda sustenta renda, consumo e confiança das famílias. O segundo é a recomposição parcial do investimento, mesmo em ambiente de custo de capital alto. O terceiro é a contribuição do setor agropecuário, que continua tendo peso importante na dinâmica agregada, especialmente em anos de safra favorável.

Mas o dado positivo também exige cautela. Crescer com inflação acima da meta e expectativas desancoradas impõe um dilema para a política econômica. Quando a atividade surpreende positivamente, o Banco Central tende a ter menos espaço para acelerar cortes de juros, pois uma economia aquecida pode dificultar a convergência da inflação. Ou seja, o crescimento do primeiro trimestre é uma boa notícia, mas não elimina o problema central da conjuntura: o Brasil continua crescendo em um ambiente de juros altos, inflação resistente e incerteza fiscal.

Inflação

A inflação voltou a ocupar o centro do debate econômico em maio. O IPCA de abril, divulgado pelo IBGE, foi de 0,67%, acumulando 4,39% em 12 meses. Já o IPCA-15 de maio subiu 0,62%, com acumulado de 4,64% em 12 meses, acima do teto da meta de inflação. A leitura mais importante não está apenas no número cheio, mas na composição da inflação. Alimentação, energia e serviços continuam pressionando o índice, cada um por razões diferentes. Alimentos e energia carregam componentes de oferta, câmbio, clima e preços internacionais. Já serviços refletem mais diretamente a dinâmica doméstica, especialmente renda, emprego e inércia. Quando a inflação de serviços permanece elevada, o Banco Central tende a interpretar que a pressão não é apenas pontual, mas também ligada ao ritmo da demanda.

Esse ponto é decisivo para a condução da política monetária. Choques de oferta podem ser tolerados em algum grau, desde que não contaminem expectativas e preços mais persistentes. O problema é que, quando a inflação fica acima do teto da meta e as expectativas de mercado passam a subir, o risco é que empresas e consumidores incorporem inflação maior em contratos, reajustes, salários e decisões de preço. Nesse caso, a inflação deixa de ser apenas um choque e passa a ser um problema de coordenação macroeconômica.

Expectativas e juros

O Boletim Focus mostrou em maio uma piora das expectativas. Em 18 de maio, a projeção do mercado para o IPCA de 2026 subiu para 4,92%, enquanto a expectativa para a Selic ao fim do ano avançou para 13,25%. Esse movimento é relevante porque expectativas não são apenas previsões. Elas influenciam decisões econômicas concretas. Se empresas esperam inflação maior, podem reajustar preços preventivamente. Se trabalhadores esperam perda de poder de compra, podem demandar recomposição salarial mais alta. Se investidores percebem risco fiscal e inflacionário, exigem maior prêmio para financiar o governo e as empresas. Assim, a desancoragem das expectativas aumenta o custo de estabilizar a economia.

A Selic elevada tem efeitos conhecidos: encarece crédito, reduz investimento, aumenta o custo de rolagem da dívida pública e limita o consumo financiado. Mas ela também funciona como sinal de compromisso com a estabilidade de preços. O desafio do Brasil é que a política monetária tem feito grande parte do esforço de estabilização, enquanto a política fiscal e a qualidade do gasto público ainda não entregam sinalização suficiente de médio prazo. Isso aumenta o custo da desinflação e prolonga o período de juros reais elevados.

Mercado de trabalho

O mercado de trabalho continuou positivo, mas com sinais de acomodação. O Brasil criou 85.888 vagas formais em abril, acumulando 699.762 novos postos de trabalho entre janeiro e abril de 2026. Nos 12 meses encerrados em abril, o saldo foi de 1.059.860 vagas. O dado confirma que o mercado de trabalho ainda é um dos principais sustentáculos da economia brasileira. Emprego formal significa renda mais previsível, maior capacidade de consumo, expansão da massa salarial e melhora da arrecadação. Em uma economia em que o consumo das famílias tem peso elevado no PIB, esse canal é essencial para explicar a resiliência da atividade.

Ao mesmo tempo, a criação de vagas em ritmo mais moderado sugere que a economia pode estar entrando em uma fase de transição. O mercado de trabalho segue saudável, mas menos exuberante. Isso é coerente com o efeito defasado dos juros altos e com a desaceleração esperada de alguns estímulos. Para as empresas, a mensagem é dupla: ainda há demanda sustentada pela renda, mas o ambiente exige prudência em decisões de expansão, contratação e endividamento.

Câmbio e setor externo

O comportamento do câmbio em maio não deve ser lido apenas pela mínima registrada no início do mês. No dia 5, o dólar à vista fechou a R$ 4,9123, menor cotação de encerramento desde janeiro de 2024, acumulando naquele momento queda de 10,51% no ano. Esse movimento refletia a combinação de juros domésticos ainda elevados, diferencial de retorno favorável ao Brasil, entrada de capitais em mercados emergentes e percepção de que o real poderia continuar se beneficiando de fundamentos externos relativamente positivos.

No entanto, a dinâmica agregada de maio mostrou uma trajetória menos linear. Depois de operar abaixo de R$ 5,00 em parte do mês, o dólar voltou a ganhar força na segunda quinzena e encerrou maio em torno de R$ 5,04 a R$ 5,05. Segundo a Folha, a moeda americana fechou o mês cotada a R$ 5,045, com alta acumulada de 1,82% em maio. O UOL registrou fechamento próximo, a R$ 5,042 na última sessão do mês. Ou seja, o fato relevante não foi apenas a valorização inicial do real, mas a reversão parcial desse movimento ao longo do mês.

Essa mudança de direção é importante porque mostra que o câmbio brasileiro continuou sensível à combinação entre fatores domésticos e externos. No início do mês, prevaleceram o diferencial de juros e o apetite por ativos de maior retorno. No fim de maio, ganharam peso a piora do ambiente para ativos brasileiros, a saída de recursos estrangeiros, a queda do petróleo no exterior, a leitura sobre o PIB brasileiro e a elevação da incerteza geoeconômica, inclusive em torno da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos. O resultado foi um mês em que o real chegou a mostrar força relevante, mas terminou pressionado.

Do ponto de vista macroeconômico, essa trajetória carrega duas mensagens. A primeira é que o câmbio ainda funciona como canal importante de alívio inflacionário quando o real se aprecia, especialmente sobre bens importados, combustíveis, insumos industriais e componentes dolarizados. A segunda é que esse alívio é frágil quando depende excessivamente do diferencial de juros e de fluxos financeiros de curto prazo. Se o mercado percebe aumento de risco fiscal, deterioração das expectativas de inflação ou maior incerteza externa, a moeda pode devolver rapidamente parte dos ganhos.

Para empresas, a leitura é igualmente relevante. O mês mostrou que decisões de importação, formação de estoques, hedge cambial, contratos de exportação e precificação não devem ser baseadas em um ponto isolado da cotação. A mínima de R$ 4,91 indicou potencial de valorização do real, mas o fechamento acima de R$ 5,04 revelou que a volatilidade continua elevada. Em um ambiente de juros altos, inflação persistente e maior uso de tarifas e barreiras comerciais como instrumentos de pressão geoeconômica, a gestão cambial precisa ser tratada como componente estratégico da administração financeira, e não apenas como variável operacional.

Balança comercial

O setor externo seguiu como importante ponto de sustentação da economia brasileira. A balança comercial registrou superávit recorde para meses de abril, e o MDIC projetou superávit comercial de US$ 72,1 bilhões para 2026, acima do resultado de 2025. Esse desempenho reforça a importância do agronegócio, da mineração, da energia e de cadeias industriais exportadoras para a estabilidade macroeconômica. Superávits comerciais robustos ajudam a reduzir vulnerabilidade externa, sustentam fluxo de divisas e diminuem a dependência de financiamento externo. Em um ambiente internacional mais incerto, essa posição é um ativo relevante.

Mas a qualidade do setor externo brasileiro ainda exige atenção. O país exporta muito em commodities e bens básicos, mas tem dificuldade de ampliar participação em produtos de maior valor agregado, tecnologia e serviços sofisticados. Isso limita ganhos de produtividade e deixa a economia mais exposta a ciclos de preços internacionais. O desafio estratégico é transformar vantagem natural em vantagem produtiva: agregar tecnologia, rastreabilidade, logística, certificação, energia competitiva e capacidade industrial às cadeias exportadoras.

Brasil e Estados Unidos

Maio também foi marcado pela intensificação da agenda comercial entre Brasil e Estados Unidos. Após encontro entre Lula e Donald Trump, os dois países estabeleceram um grupo de trabalho para discutir tarifas e a investigação comercial conduzida pelos EUA.

O fato é relevante porque mostra que a política comercial americana passou a ser utilizada de forma cada vez mais explícita como instrumento de pressão econômica e geopolítica. Tarifas deixam de ser apenas instrumentos de proteção setorial e passam a funcionar como mecanismos de negociação, barganha e indução de comportamento. Isso altera o ambiente de negócios para países exportadores, inclusive o Brasil.

Para a economia brasileira, o risco não está apenas em uma tarifa específica, mas na mudança do regime de previsibilidade. Quando grandes economias utilizam tarifas, sanções, investigações comerciais e barreiras regulatórias como instrumentos de pressão, empresas passam a operar em um ambiente mais incerto. Isso afeta decisões de investimento, contratos de longo prazo, estratégia de internacionalização e estrutura de custos. Para o Espírito Santo, esse tema é particularmente relevante porque o estado tem forte integração com comércio exterior, logística, portos, rochas ornamentais, celulose, café, petróleo, gás e indústria.

China e frigoríficos brasileiros

A suspensão temporária de três frigoríficos brasileiros pela China reforçou outro ponto importante da conjuntura: o comércio internacional está cada vez mais condicionado a requisitos sanitários, ambientais, regulatórios e de rastreabilidade. A medida atingiu unidades da JBS, PrimaFoods e Frialto, segundo informações divulgadas em maio.

Mesmo quando medidas desse tipo têm caráter pontual ou preventivo, elas revelam uma tendência estrutural. O acesso a mercados não dependerá apenas de preço, escala e capacidade de produção. Dependerá cada vez mais de conformidade regulatória, sistemas de controle, rastreabilidade, certificação, transparência e capacidade institucional de responder rapidamente a exigências externas.

Esse é um alerta que vai além da carne bovina. O mesmo tipo de pressão pode aparecer em cadeias de café, celulose, minério, fertilizantes, biocombustíveis, alimentos processados e produtos industriais. Países e empresas que conseguirem provar origem, qualidade, sustentabilidade e conformidade terão vantagem competitiva. Quem tratar essas exigências como barreiras ocasionais correrá o risco de perder mercado. A nova fronteira da competitividade internacional é institucional, tecnológica e regulatória.

Espírito Santo

No plano estadual, maio trouxe dois sinais positivos para o Espírito Santo. O primeiro foi o desempenho no Ranking de Competitividade dos Estados, em que o estado apareceu como primeiro colocado em gestão pública e como o que mais avançou na área econômica nos últimos três anos. Esse resultado importa porque gestão pública não é apenas um indicador administrativo. Ela afeta diretamente o ambiente de negócios. Estados com maior capacidade de planejamento, execução, equilíbrio fiscal, qualidade regulatória e previsibilidade institucional tendem a atrair investimentos com mais facilidade. Em um país marcado por insegurança jurídica e baixa produtividade, capacidade estatal passa a ser diferencial competitivo.

O segundo sinal positivo veio do mercado de trabalho. O Espírito Santo criou 3.611 vagas formais em abril e acumulou 16.515 postos entre janeiro e abril de 2026. Esse desempenho mostra uma economia estadual ainda dinâmica. A geração de empregos formais contribui para renda, consumo, arrecadação e estabilidade social. Mas o principal desafio capixaba é transformar bons indicadores conjunturais em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo. O Espírito Santo tem ativos importantes: portos, logística, indústria, petróleo e gás, café, rochas ornamentais, celulose, comércio exterior, energia e posição geográfica estratégica. O desafio é integrar esses ativos em uma agenda de produtividade, inovação, infraestrutura, capital humano e inserção externa mais sofisticada.

Síntese

Maio de 2026 revelou uma economia brasileira resiliente, mas tensionada. O crescimento do PIB surpreendeu positivamente, o mercado de trabalho continuou gerando vagas, o setor externo permaneceu robusto e o câmbio teve momentos de forte valorização. Esses elementos indicam que a economia não está em trajetória de estagnação.

Ao mesmo tempo, a inflação permanece acima da meta, as expectativas se deterioraram, os juros continuam elevados e a incerteza geoeconômica aumentou. O Brasil enfrenta uma combinação delicada: atividade ainda forte, inflação persistente, política monetária restritiva e ambiente externo mais fragmentado. Essa combinação exige prudência, coordenação e reformas que ampliem a produtividade.

A principal mensagem do mês é que crescimento de curto prazo não substitui fundamentos de longo prazo. O Brasil precisa crescer, mas precisa crescer com estabilidade, produtividade, investimento e previsibilidade. Sem isso, cada aceleração da atividade volta a encontrar o mesmo limite: inflação, juros altos, baixa capacidade de investimento e vulnerabilidade a choques externos.

Para o Espírito Santo, o cenário abre riscos e oportunidades. O estado possui vantagens institucionais e logísticas relevantes, mas precisará transformar essas vantagens em uma agenda econômica mais ambiciosa. Em um mundo em que comércio, geopolítica, tecnologia e regulação estão cada vez mais integrados, competitividade dependerá menos de vantagens estáticas e mais da capacidade de coordenar setor público, setor privado, infraestrutura, educação, inovação e inserção internacional.

Autor

Felipe Storch Damasceno

Economista-Chefe do IBEF-ES

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