A metade esquecida do mecanismo de preços

Um preço é uma mensagem sem remetente central. Quando sobe, consumidores economizam, produtores buscam alternativas e o capital migra para usos mais valorizados. Mas há uma condição menos lembrada nesse mecanismo. O sinal precisa chegar ao resultado de quem decide. Se o ganho permanece privado e a perda, de modo previsível, é transferida a terceiros, parte do preço deixa de disciplinar escolhas. Preço sem consequência é apenas metade do mercado.

Adam Smith ofereceu a primeira peça dessa lógica. Em A Riqueza das Nações, ao tratar da alocação do capital, observou que o indivíduo, em sua situação concreta, costuma avaliar melhor o emprego de seus recursos do que um legislador distante. O ponto não é que o mercado seja perfeito, e sim que a coordenação econômica pode nascer de decisões descentralizadas. Para que essa ordem funcione, as instituições precisam garantir que escolhas diferentes produzam resultados diferentes.

Milton e Rose Friedman tornam essa ligação explícita em Livre para Escolher. O sistema de preços transmite informação, cria incentivo e afeta a distribuição da renda, três funções que operam juntas. A primeira delas remonta a Friedrich Hayek, que em O Uso do Conhecimento na Sociedade (1945) mostrou que nenhum planejador central conseguiria reunir o conhecimento disperso entre milhões de agentes; o preço condensa esse conhecimento disperso num único número, capaz de orientar quem nunca teve acesso direto a ele. Uma mudança de preço sinaliza alteração na escassez relativa e estimula adaptação, mas informação sem incentivo rende pouco: se responder bem ou mal ao sinal quase não altera o retorno de quem decide, o preço perde parte de sua função de orientar comportamento.

János Kornai mostrou o reverso desse mecanismo. Ao estudar economias socialistas, chamou de restrição orçamentária branda o ambiente em que organizações esperam subsídio, crédito favorecido ou outro socorro quando os resultados pioram. Aqui a nuance importa: um subsídio isolado não torna a restrição branda; o problema surge quando o apoio passa a ser esperado depois do mau resultado, o que reduz a sensibilidade ao preço e enfraquece a disciplina financeira.

O Brasil ilustra bem esse padrão. Desde 2000, o governo federal já instituiu cerca de quarenta programas de parcelamento tributário especial, segundo levantamentos da Receita Federal reproduzidos em auditorias do TCU. Boa parte dos contribuintes que adere a um programa reaparece no seguinte, e um estudo da FEA-USP citado pelo Tribunal mostrou que o parcelamento passou a entrar no cálculo de planejamento tributário das empresas, como alternativa ao pagamento em dia. Na linguagem de Kornai, a recorrência transforma alívio pontual em expectativa, e a expectativa opera como restrição orçamentária branda aplicada à cobrança de tributos.

Isso não condena todo subsídio ou socorro público. Crises sistêmicas e falhas de mercado podem justificar intervenção, e nenhuma economia de mercado exige que cada erro seja fatal. A questão é o desenho: regra clara, prazo definido, contrapartida, partilha de risco e saída crível, a diferença entre uma política que corrige uma falha de mercado e um socorro recorrente e previsível que cria outra.

Mercados funcionam como sistemas de retroalimentação. Smith explica a coordenação sem comando central, os Friedman mostram por que o preço informa e incentiva, Kornai revela o que ocorre quando esse retorno é amortecido. Uma economia de mercado não exige que todo erro seja punido, mas exige que seu custo não seja, por padrão, responsabilidade de outro. Quando o preço diz uma coisa e as instituições garantem outra, os agentes aprendem a seguir as instituições. O número continua na etiqueta, mas parte de seu significado econômico desaparece.

Autor

Guilherme Machado

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