Artigo publicado como integrante do CQC de Economia e Finanças.
Muitas vezes, em se tratando de equilíbrio fiscal e contas públicas em dia, o assunto parece restrito ao setor público. No entanto, o excelente debate na edição deste ano do CEO Meeting do IBEF-ES revelou que a saúde das contas do Espírito Santo é, na verdade, uma das suas maiores ferramentas de produtividade. Existe uma lógica simples, mas cruel: um estado endividado e ineficiente drena o capital que deveria estar no setor privado gerando valor.
O Espírito Santo é um dos poucos estados com Nota A no CAPAG (Capacidade de Pagamento) de forma consecutiva desde 2012 (segundo o Tesouro Nacional). Isso permite ao estado captar recursos externos (como os do BID ou Banco Mundial) com garantias da União e juros significativamente menores para obras de infraestrutura, algo que estados como Rio de Janeiro ou Minas Gerais não conseguem acessar com a mesma facilidade.
Em 2025, de acordo com o Centro de Liderança Pública (CLP), o Espírito Santo ostentou a segunda colocação no ranking nacional dos estados com maior solvência fiscal. Enquanto muitos estados brasileiros lutam para pagar a folha salarial, o ES mantém um resultado fiscal sólido. Isso cria um ambiente de previsibilidade.
Mas como isso vira produtividade na prática? A produtividade depende diretamente do investimento, e ninguém deseja investir em um lugar onde o risco de aumento de impostos ou colapso de serviços públicos é alto. Adicionalmente, a capacidade de investimento público em infraestrutura sem gerar déficit é um diferencial competitivo importante, pois revela uma perenidade desses investimentos.
No entanto, o bom resultado financeiro também deixa um alerta: ter as contas em dia é o ponto de partida, não o de chegada. O desafio agora é usar essa folga fiscal para investir pesado em educação técnica e conectividade, que são os gargalos que ainda impedem o trabalhador capixaba de ser tão produtivo quanto um competidor global.
Apesar de liderar o IDEB 2023, o ES ainda não converte essa educação em renda alta na tecnologia, com salários próximos à média nacional conforme dados mais recentes do IBGE. Segundo o Observatório da Indústria, esse gap exige que a folga fiscal financie a especialização técnica, evitando que talentos locais sejam subutilizados em setores de baixo valor agregado.
O equilíbrio fiscal não deve ser visto como um objetivo final, mas como um meio para que o Espírito Santo conquiste juros mais baixos e maior credibilidade na atração de capital estrangeiro. Sem esse alicerce, qualquer avanço em produtividade tende a ser instável. O Estado já demonstrou responsabilidade na gestão dos recursos; agora, o desafio é transformar essa eficiência em maior geração de valor por hora trabalhada.