Resenha: Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza

Daron Acemoglu, economista do renomado Massachusetts Institute of Technology (MIT), e James A. Robinson, cientista político da Universidade de Harvard, estão entre os pensadores atuais de maior impacto no estudo das conexões entre estruturas de governança, controle político e o avanço econômico. Em suas trajetórias profissionais, ambos desenvolveram trabalhos com o objetivo de desvendar os motivos por trás da riqueza e da carência em diferentes países, tornando-se figuras de autoridade na área da economia política. O livro “Por Que as Nações Fracassam: As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza”, lançado em 2012 é fruto de mais de dez anos de investigações sobre o desenvolvimento econômico em perspectiva comparativa.

O livro parte de uma pergunta aparentemente simples: por que existem diferenças tão profundas de riqueza entre os países? Para responder a essa questão, os autores rejeitam explicações tradicionais baseadas em geografia, cultura ou ignorância dos governantes. Em seu lugar, defendem que a prosperidade das nações depende fundamentalmente da qualidade de suas instituições políticas e econômicas. Ao longo da obra, os autores constroem uma ampla narrativa histórica para demonstrar que sociedades prosperam quando possuem instituições inclusivas, capazes de distribuir oportunidades, proteger direitos de propriedade e limitar a concentração de poder político.

O argumento começa com a conhecida ilustração das cidades de Nogales, separadas pela linha divisória entre os Estados Unidos e o México. Apesar de possuírem geografia, clima, cultura e ascendências demográficas análogas, exibem patamares de progresso drasticamente distintos. Com base nessa contraposição, os autores descrevem que as disparidades econômicas não podem ser atribuídas unicamente a elementos naturais ou culturais, mas sim às estruturas que regem a organização social. Ao passo que Nogales, no Arizona, se beneficia de estruturas que asseguram prerrogativas, estímulos econômicos e engajamento cívico, Nogales, em Sonora, coexiste tradicionalmente com estruturas menos eficazes e menos abertas.

Em seguida, os autores se dedicam a desconstruir as principais teses que historicamente buscaram elucidar a escassez das nações. A visão geográfica, por exemplo, postula que fatores climáticos, a qualidade da terra ou a abundância de recursos naturais seriam determinantes para o avanço econômico. Enquanto isso, a perspectiva cultural culpa o êxito ou insucesso de povos a seus valores e hábitos particulares. Por último, a conhecida suposição da falta de conhecimento afirma que as nações carentes se mantêm estagnadas por seus líderes ignorarem as estratégias adequadas para impulsionar o progresso. Acemoglu e Robinson evidenciam que tais argumentações não são completas, uma vez que falham ao não explicar situações históricas onde comunidades parecidas trilharam caminhos totalmente divergentes.

Com base nessa análise, a obra introduz sua ideia central: a diferenciação entre sistemas institucionais que promovem a inclusão e aqueles que visam a extração. Instituições inclusivas são definidas por assegurar proteção legal, direitos de posse, tratamento equitativo perante a legislação e ampla participação tanto na esfera econômica quanto na política. Em contrapartida, instituições extrativistas tendem a centralizar recursos e autoridade nas mãos de poucos, empregando os mecanismos do Estado para favorecer círculos restritos em detrimento da coletividade. Tal separação serve como o prisma através do qual os responsáveis pela pesquisa examinam toda a trajetória econômica global.

Essa interpretação dialoga com autores como Douglass North e aproxima-se da tradição liberal clássica de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises. Embora Acemoglu e Robinson não pertençam à Escola Austríaca, suas conclusões convergem com a ideia de que a prosperidade surge em ambientes marcados por regras estáveis, respeito à propriedade privada, segurança jurídica e liberdade econômica. Assim como Hayek defendia que a ordem econômica emerge da interação livre entre indivíduos, os autores demonstram que sociedades prosperam quando os incentivos favorecem a inovação, a concorrência e a criação de riqueza. Dessa forma, o livro reforça que o desenvolvimento sustentável depende mais de instituições sólidas do que da ação de governantes individuais.

Nos capítulos seguintes, Acemoglu e Robinson aprofundam sua exploração histórica com a introdução do conceito de “momentos decisivos”. Conforme explicam os autores, acontecimentos como conflitos bélicos, levantes sociais ou avanços tecnológicos significativos geram janelas de oportunidade para reformas nas instituições. Contudo, os desfechos dessas alterações são moldados pelas estruturas políticas preexistentes. Variações mínimas que se somam com o passar do tempo podem levar a caminhos nitidamente diferentes, esclarecendo o motivo pelo qual certas sociedades evoluem em direção à prosperidade ao passo que outras permanecem paralisadas.

A ideia é usada para analisar o progresso sob regimes exploratórios. Os criadores admitem que esquemas bem concentrados podem impulsionar a economia em certas fases, tal qual a União Soviética demonstrou e a China faz agora. Todavia, defendem que tal método tem barreiras a longo prazo, pois limita a criatividade e diminui o estímulo para quem quer começar algo novo. Essa ponderação é especialmente importante nos dias de hoje, pois põe em xeque a viabilidade de abordagens econômicas que geram avanço sem expandir direitos políticos e financeiros.

Na sequência, a obra destaca a Revolução Gloriosa de 1688, na Inglaterra, como um dos marcos institucionais cruciais da era moderna. Ao restringir a autoridade monárquica e aumentar a força do Parlamento, os britânicos edificaram estruturas mais abertas, propícias à salvaguarda de investimentos e ao estímulo da atividade produtiva. Segundo os autores, esse acontecimento abriu caminho para a Revolução Industrial e para um desenvolvimento econômico sem precedentes nos séculos seguintes. Essa perspectiva corrobora a noção de que o avanço tecnológico não é um fenômeno isolado, mas sim dependente de um contexto institucional.

Na sequência, o livro investiga a consequência do colonialismo em diversas áreas do globo. Através de casos da América Latina, África e Ásia, demonstram como várias colônias obtiveram estruturas criadas com o propósito de sugar riquezas e centralizar a autoridade. Essa herança estrutural teria ajudado a manter as disparidades e a criar obstáculos ao progresso econômico depois da libertação. Isso representa um dos trechos mais importantes do livro para entender a construção histórica de nações como o Brasil, cuja organização econômica e governamental ainda exibe marcas vindas do tempo colonial.

Nos capítulos finais, os autores apresentam os conceitos de círculo virtuoso e círculo vicioso das instituições. Instituições inclusivas tendem a fortalecer a participação política, ampliar oportunidades econômicas e gerar prosperidade, criando incentivos para sua própria preservação. Em contrapartida, instituições extrativistas produzem concentração de poder e renda, dificultando mudanças estruturais. Apesar desse diagnóstico, os autores demonstram que a história não é determinista e apresentam exemplos de países que conseguiram romper padrões históricos de fracasso por meio de transformações institucionais significativas.

Embora a obra apresente uma argumentação extremamente consistente, algumas críticas podem ser feitas. Em determinados momentos, os autores parecem atribuir peso excessivo às instituições, reduzindo a relevância de fatores culturais, tecnológicos ou geográficos. Ainda assim, essa possível simplificação não compromete a força de sua principal contribuição: demonstrar que o modo como o poder político é distribuído influencia diretamente os incentivos econômicos e, consequentemente, o desenvolvimento das nações.

O livro oferece uma das explicações mais influentes sobre as origens da prosperidade e da pobreza no mundo. Ao colocar as instituições no centro da análise, os autores demonstram como o poder político molda os incentivos econômicos e influencia o sucesso ou fracasso das sociedades. Sua principal contribuição é mostrar que o desenvolvimento depende menos de fatores geográficos ou recursos naturais e mais da existência de instituições capazes de proteger direitos de propriedade, garantir segurança jurídica, estimular a inovação e limitar a concentração de poder. Essa conclusão aproxima-se de autores liberais como Hayek e Mises, que associam a prosperidade à liberdade econômica, à cooperação voluntária e a regras estáveis que favorecem a livre iniciativa.

Mais do que explicar o passado, o livro oferece ferramentas para compreender desafios contemporâneos enfrentados por países em desenvolvimento, inclusive o Brasil. Sua leitura evidencia que crescimento econômico sustentável, liberdade e prosperidade de longo prazo não são resultado do acaso, mas da construção contínua de instituições capazes de ampliar oportunidades e restringir privilégios. Por essa razão, trata-se de uma obra indispensável para todos aqueles que desejam compreender os verdadeiros fundamentos do desenvolvimento das nações.

Autor

Gleiciane Kempim

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