O gongo da autopreservação nas empresas familiares

Artigo publicado como integrante do CQC de GRC.

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”¹ A célebre abertura de Tolstói descreve, com precisão involuntária, um padrão que se repete entre as empresas familiares. As que prosperam compartilham o mesmo desenho: governança clara, acordos formalizados, sucessão planejada, separação entre propriedade, gestão e família. As que se desfazem, desfazem-se cada uma à sua maneira – e quase sempre essa maneira singular só é compreendida tarde demais.

O paradoxo é que a maior ameaça à perenidade desses negócios não é, necessariamente, a crise econômica, mas a acomodação silenciosa e o medo do conflito. O “tá ruim, mas tá bom” funciona como anestésico: posterga decisões cuja simplicidade só existe enquanto há tempo. Não dói o suficiente para mobilizar, mas corrói o suficiente para inviabilizar a médio e longo prazo. Quando a urgência chega – uma doença, um falecimento, uma briga entre sócios, uma divergência geracional – ou quando a concorrência do mercado não perdoa, o que era ajustável torna-se ruptura.

Adiamos por razões compreensíveis. Há o receio de provocar conflitos onde reina, na superfície, “perfeita” harmonia. Há a confiança de que “na hora certa a gente conversa” – mas a hora certa não chega. Há a confusão entre afeto e governança.

Churchill, em discurso sobre o fracasso britânico em rearmar-se, descreveu com exatidão um diagnóstico que se repete: “falta de visão de futuro, recusa em agir quando a ação seria simples e eficaz, ausência de pensamento claro, confusão de conselhos, até que a emergência chega, até que a autopreservação faz soar seu gongo dissonante”². O gongo, quando soa, já encontra todos despreparados³.

A mera aparência de harmonia engana. No Manual de Empresas Familiares da Harvard Business Review, Baron e Lachenauer comparam essa “quietude” a um iceberg: a superfície agrada, mas o perigo mora logo abaixo. Eles narram o caso de uma família empresária com níveis muito desiguais de comprometimento, em que os líderes, temendo afastar alguém, recusavam estabelecer boa governança. Os ânimos se acirraram não pelo excesso de divergência, mas pela ausência de decisões – e o desfecho foi a venda do negócio, preferível, aos olhos dos sócios, a enfrentar os desentendimentos que ameaçariam – em tese – a harmonia familiar⁴.

Os autores indicam o caminho oposto: começar pelo propósito compartilhado, formular princípios antes de precisar deles, focar em regras em vez de pessoas, enxertar o novo no que já existe e preservar – em vez de rebaixar – o valor do que veio antes5.

Em 1929, Churchill resumiu parte de seu modus operandi em uma frase: “Gosto que as coisas aconteçam, e quando não acontecem, gosto de fazê-las acontecer.”6 Governança e sucessão, no fim, são exatamente isso – fazer acontecer, enquanto a ação ainda é simples, aquilo que se tornará inevitável quando o gongo soar.

A pergunta, então, fica posta a cada empresário familiar e a cada conselheiro: vamos esperar o gongo, ou vamos agir agora, enquanto ainda é tempo?

Notas de rodapé:

¹ TOLSTÓI, Liev. Anna Kariênina. São Paulo: Companhia das Letras (edição do Kindle), p. 16.

² Tradução livre. No original: "Want of foresight, unwillingness to act when action would be simple and effective, lack of clear thinking, confusion of counsel until the emergency comes, until self-preservation strikes its jarring gong – these are the features which constitute the endless repetition of history." ROBERTS, Andrew. Churchill: Walking with Destiny. Penguin Publishing Group (edição do Kindle), p. 389.

³ Tradução livre. No mesmo discurso, Churchill observara: "Não há nada de novo nesta história. É tão antiga quanto os Livros Sibilinos. Insere-se naquele longo e sombrio catálogo da infrutuosidade da experiência e da confirmada incapacidade da humanidade de aprender com ela." No original: "There is nothing new in the story. It is as old as the Sibylline Books. It falls into that long, dismal catalogue of the fruitlessness of experience and the confirmed unteachability of Mankind." ROBERTS, Andrew. Churchill: Walking with Destiny. Penguin Publishing Group (edição do Kindle), p. 389.

⁴ Paráfrase a partir de BARON, Josh; LACHENAUER, Rob. Harvard Business Review manual de empresas familiares: como construir e manter uma empresa bem-sucedida e duradoura. Rio de Janeiro: Alta Books, 2023 (edição do Kindle), pp. 311-313.

⁵ BARON, Josh; LACHENAUER, Rob. Harvard Business Review manual de empresas familiares, op. cit., pp. 313-315.

6 Tradução livre. No original: "I like things to happen and if they don't happen I like to make them happen." Churchill em carta a Arthur Ponsonby MP, 1929. ROBERTS, Andrew. Churchill: Walking with Destiny. Penguin Publishing Group (edição do Kindle), p. 322.

Autor

Bernardo Azevedo Freire

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