Propósito no trabalho: modismo ou evolução?

Artigo publicado como integrante do CQC de Empreendedorismo e Gestão.

Durante muito tempo, a palavra “propósito” parecia restrita a discursos inspiracionais ou a reflexões sobre desenvolvimento pessoal. Hoje ela aparece com frequência em debates sobre gestão, liderança e cultura organizacional — e não raramente acompanhada de uma crítica: a de que essa busca seria uma característica das novas gerações. Mas a história do trabalho mostra algo diferente. O ser humano sempre buscou propósito. O que mudou não foi a existência dessa busca, e sim a forma como ela se manifesta ao longo das gerações.

Em grande parte do século XX, o propósito profissional estava associado à estabilidade. Ter um emprego seguro, construir uma trajetória dentro de uma empresa e garantir previsibilidade para a família eram objetivos claros. O plano de carreira, os benefícios e a permanência na mesma organização por muitos anos representavam uma forma legítima de propósito. Hoje, outros elementos passaram a compor essa equação. Pesquisas globais indicam que novas gerações valorizam cada vez mais o sentido do trabalho. Um estudo da Deloitte com mais de 23 mil jovens aponta que 89% da geração Z e 92% dos millennials consideram essencial ter propósito para se sentirem satisfeitos no trabalho.

Esse propósito pode assumir diferentes formas: impacto social, aprendizado contínuo, desenvolvimento pessoal ou qualidade de vida. O ponto central é que o trabalho deixou de ser apenas um meio de sobrevivência e passou a ser também uma extensão da identidade das pessoas. Quando esse alinhamento existe, os resultados organizacionais aparecem de forma concreta. Pesquisas da Gallup (empresa global de análise e consultoria) mostram que colaboradores que percebem sentido no que fazem apresentam níveis muito mais altos de engajamento — podendo ser até cinco vezes mais engajados do que aqueles que não enxergam propósito no trabalho. Equipes engajadas também apresentam maior produtividade e níveis significativamente menores de absenteísmo.

Quando esse alinhamento não acontece, os efeitos também são claros. Parte dos profissionais decide sair em busca de ambientes mais coerentes com seus valores. Outros optam por empreender. E há um terceiro grupo, menos visível, mas igualmente relevante: aqueles que permanecem, porém, emocionalmente desconectados do trabalho. São colaboradores que cumprem tarefas, mas não entregam energia. Que participam das reuniões, mas não se sentem parte do projeto. Permanecem na organização, mas deixam de ser verdadeiros aliados do negócio — e, em alguns casos, tornam-se até detratores internos diante de clientes, parceiros e demais stakeholders.

Propósito, portanto, não é apenas uma discussão filosófica ou um conceito geracional. É uma variável estratégica para as organizações. Empresas que conseguem conectar a contribuição individual das pessoas a um impacto maior criam algo raro: o pertencimento. E pertencimento gera engajamento, inovação e permanência. No fim, a pergunta não é se as pessoas buscam propósito — elas sempre buscaram. A pergunta que permanece para as lideranças é outra: o trabalho ainda faz sentido para quem o realiza? 

Autor

Luana Aparecida Nandorf

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