O apagão que ninguém quer, mas todo mundo precisa

Artigo publicado como integrante do CQC de Inovação e Tecnologia.

A empresa que mais automatizou no seu setor provavelmente não fez isso por visão estratégica. Fez porque não conseguiu contratar. Escassez de mão de obra não é freio. É o empurrão que a maioria dos negócios precisava para mudar.

Segundo a PNAD Contínua do IBGE, o Brasil fechou 2025 com taxa média de desemprego de 5,6%, a menor da série histórica. A manchete parece boa. Na prática, significa que empresas que ainda dependem de contratação para crescer enfrentam um mercado de trabalho cada vez mais disputado.

Dados do Statistics Bureau do Japão mostram que a população em idade ativa caiu de cerca de 87 milhões nos anos 1990 para aproximadamente 73 milhões em 2024. Não colapsou. Tornou-se uma das economias com maior densidade de robôs industriais do planeta, segundo a International Federation of Robotics. A escassez forçou uma reconfiguração que décadas de planejamento estratégico não conseguiram.

No Brasil, o padrão se repete em escala setorial. O Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027 do SENAI estima que o Espírito Santo precisará qualificar cerca de 279 mil trabalhadores para reposição e expansão da indústria. Logística, construção e operação industrial lideram a demanda. Não há pipeline de formação que resolva esse déficit no prazo. A alternativa não é esperar. É redesenhar o trabalho.

Dados do Censo 2022 do IBGE indicam que dezenas de milhares de capixabas passaram a residir fora do estado na última década, refletindo movimentos migratórios internos. Menos gente disponível significa mais pressão operacional sobre as empresas que ficam. O reflexo direto aparece nos setores exportadores, que operam sob pressão cambial, margens apertadas e concorrência internacional. Café, rochas ornamentais e logística portuária são exatamente os segmentos onde a automação entrega mais retorno: processos repetitivos, alta escala, tolerância zero a erro. No setor de rochas ornamentais, o corte automatizado de mármore e granito já substitui etapas inteiras que dependiam de operadores cada vez mais difíceis de encontrar.

O Espírito Santo não precisa resolver a emigração de talentos. Precisa aprender a crescer sem depender de volume de mão de obra. Produtividade por trabalhador, não volume de trabalhadores, é o que separa economias que encolhem de economias que se reinventam.

As empresas que redesenharem seus processos agora terão vantagem competitiva estrutural frente à escassez que veio para ficar. Quem aprender a prosperar com menos gente não vai resolver o apagão de mão de obra, e sim tornar a pergunta irrelevante.

Autor

Dhan Sugui

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