Artigo publicado como integrante do CQC de ESG.
Em um cenário de baixo desemprego e dificuldade crescente de contratação, empresas que investem na formação de pessoas podem transformar um problema estrutural em vantagem competitiva.
Há, sim, diante de um paradoxo: de um lado, uma das menores taxas de desemprego do país; de outro, empresas de diferentes setores enfrentando dificuldades reais para contratar e reter talentos.
O problema já não é mais a ausência de emprego, mas a dificuldade de conectar pessoas às vagas existentes, seja por falta de qualificação, desalinhamento de expectativas ou condições de trabalho que não acompanham a dinâmica de um mercado mais aquecido.
Nesse contexto, a pergunta deixa de ser “onde encontrar pessoas?” e passa a ser: como preparar melhor essas pessoas para o trabalho que existe?
É nesse ponto que o Investimento Social Privado ganha um novo significado. Durante muito tempo, o ISP foi tratado como filantropia, importante, claro, mas muitas vezes desconectada da estratégia do negócio. Hoje, no entanto, ele se consolida como uma alocação intencional de recursos capaz de enfrentar desafios reais da sociedade e, ao mesmo tempo, fortalecer o próprio negócio.
Segundo o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), estimativas indicam que o Investimento Social Privado já movimenta mais de R$ 4 bilhões por ano no Brasil e vem ganhando cada vez mais estrutura e intencionalidade. Mais do que o volume, o que chama atenção é a mudança de abordagem: empresas que conectam o ISP à sua estratégia avançam de forma mais consistente em suas agendas ESG, fortalecendo a relação com stakeholders e gerando valor de longo prazo.
Ainda assim, boa parte desse investimento segue pouco conectada aos desafios estruturais do próprio negócio e é justamente aí que reside uma oportunidade relevante.
Diante da escassez de pessoas preparadas e do alto turnover, surge uma estratégia concreta: direcionar parte desse investimento para a formação, desenvolvendo competências, comportamento profissional e maior aproximação com o mundo do trabalho.
Além disso, ao combinar o ISP com o uso de incentivos fiscais, as empresas conseguem direcionar recursos, inclusive tributários, para projetos estruturados de formação, ampliando o alcance das iniciativas sem necessariamente elevar o custo total do investimento.
Nessa perspectiva, o impacto ganha outra dimensão: mais escala, mais eficiência e melhores resultados. O efeito é relevante: profissionais mais preparados, alinhados à cultura e às demandas reais das organizações, além de ganhos em retenção.
O ISP se apresenta como um caminho concreto para isso, quando deixa de ser apenas uma boa intenção e passa a operar com foco, estrutura e intencionalidade.
Não se trata de substituir o papel do Estado ou de onerar ainda mais a iniciativa privada, mas de reconhecer a contribuição do setor empresarial na construção de soluções estruturantes, transformando desafios em oportunidades de desenvolvimento econômico e social.