A polarização “computador versus humano” é um erro que enfraquece o pilar social do ESG

Artigo publicado como integrante do CQC de ESG.

Dizer que computadores passaram a fazer muito do que humanos faziam e, mesmo assim, não deixaram humanos sem trabalho é sedutor. Muitas vezes, porém, isso vira uma desculpa elegante para um tipo de acomodação, como se bastasse confiar que o aumento da produtividade resolverá sozinho as tensões sociais da automação. Esse enquadramento sustenta uma disputa rasa, como se o eixo fosse tecnologia contra pessoas. O eixo correto é outro: como a sociedade organiza os ganhos de produtividade e quem participa desses ganhos.

Automação reduz desperdício, melhora segurança, aumenta previsibilidade e sustenta competitividade. Negar isso seria negar a realidade do chão de fábrica. Ao mesmo tempo, como economista, sei que a economia não existe sem pessoas. O principal ativo econômico de um país não é apenas sua capacidade de produzir. É sua capacidade de vender. E isso depende de um mercado consumidor vivo, sustentado por renda, emprego e confiança.

É aqui que entra o pilar Social do ESG. Quando a conversa vira computador contra humano, desaparece o que realmente importa: qualidade do emprego, trajetória salarial, requalificação, segurança psicológica e, acima de tudo, a distribuição do ganho de produtividade. A história mostra que tecnologia tende a reorganizar tarefas e setores antes de eliminar ocupações inteiras de uma vez. Ela altera partes dos trabalhos e cria necessidade de adaptação. O risco social surge quando a transição é rápida e os mecanismos de absorção são lentos.

Essa polarização também mistura dois problemas diferentes. O primeiro é técnico: o que pode ser automatizado. O segundo é político e econômico: quem captura o valor gerado pela automação. Se produtividade cresce e a renda da base estagna, o mercado consumidor enfraquece, a demanda perde tração e a capacidade produtiva torna-se excesso. Não há prosperidade sustentada quando alta produtividade convive por muito tempo com consumo estruturalmente fraco.

Desenvolvimento precisa ser ambidestro. É fundamental aumentar produtividade e investir em automação, mas também criar condições para que mais pessoas participem dos ganhos gerados pelo crescimento. Isso exige capital humano, qualificação, mobilidade no mercado de trabalho, empreendedorismo e empregos de maior valor agregado. Inclusão sustentável não nasce de imposição, mas de produtividade, competição e oportunidades reais. A riqueza de uma nação aparece quando a qualidade de vida se espalha. Não quando os ganhos ficam concentrados.

No fim, não é computador contra humano. Sem humano não há dado, não há meta, não há propósito, não há mercado. Computadores são ferramentas. O conflito real é entre uma visão que usa tecnologia para ampliar bem-estar coletivo e outra que usa tecnologia para concentrar ganhos e terceirizar custos sociais. Esse é o debate que o pilar Social do ESG precisa liderar.

Autor

Pedro Cardoso

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