A inovação não precisa ser ciência de foguete

Artigo publicado como integrante do CQC de Inovação e Tecnologia.

Em tempos em que a SpaceX combina ciência aeroespacial, inteligência artificial e produção de energia na mesma empresa, aplicar novas tecnologias no negócio parece cada vez mais distante da realidade do empresário brasileiro. Mas o maior retorno da inovação está na aplicação de tecnologias já desenvolvidas, não no seu desenvolvimento. A própria trajetória de Musk prova o ponto. Na SpaceX, ele não inventou o foguete, reprojetou uma tecnologia de 70 anos com manufatura enxuta e reduziu o custo de lançamento orbital em mais de 90%. Na Tesla, o motor elétrico tem 200 anos e a bateria de lítio foi desenvolvida por pesquisadores como John Goodenough, Nobel de Química em 2019, sem que nenhum deles tivesse ficado bilionário com a descoberta, porém a Tesla integrou essas tecnologias e construiu uma das maiores empresas do mundo. Ou seja, Musk não criou a tecnologia de base: capturou o valor de aplicá-la melhor do que ninguém.

O empresário, portanto, precisa entender quando uma tecnologia está pronta para ser aplicada no seu negócio para capturar o valor que ela gera. Essa leitura é possível por meio de uma escala chamada TRL, Technology Readiness Level, desenvolvida pela NASA nos anos 1970 e hoje adotada por universidades e pelas principais instituições de fomento do país, como a FINEP, o BNDES e a Embrapa.

A escala vai do TRL 1 ao 9. Nos níveis 1 a 3, estamos no território da pesquisa básica, domínio das universidades e institutos de pesquisa. Nos níveis 8 e 9, a tecnologia já está operacional e esse é o campo natural das empresas. O desafio maior está no que é conhecido como vale da morte da inovação, os níveis 4 a 7, nos quais a pesquisa acadêmica precisa se transformar em desenvolvimento aplicado e o empresário tem mais receio de investir. É aqui que entram as instituições de fomento, funcionando como indutoras da inovação e permitindo que o empresário reduza o risco financeiro por meio de subvenção econômica ou crédito subsidiado.

Em um cenário de juros altos e incerteza política e econômica, o empresário busca o retorno previsível. Os mais ousados diversificam investindo em startups como investidor-anjo, mas tendem a segregar esse risco do negócio principal. Porém, é exatamente nessa separação que deixam de capturar o maior retorno estratégico desse tipo de investimento, o aprendizado da empresa ao iterar com a fronteira de inovação e acessar recursos de fomento.

No Espírito Santo, esse cenário tem saída concreta. O Nova Economia Capixaba abre a 2ª edição com projetos de até R$ 3 milhões em parceria com universidades capixabas e uma nova edição do Tecnova está prevista para 2027. Para empresas que buscam menor risco tecnológico, a FINEP disponibiliza o Inovacred Descentralizado com crédito subsidiado de até R$ 30 milhões por projeto. Ou seja, o vale da morte não precisa ser atravessado sozinho, e o empresário capixaba tem hoje instrumentos concretos para inovar com risco compartilhado, sem precisar inventar uma tecnologia de foguetes.

Autor

Yuri Porto Nico

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