A IA já chegou às organizações, a governança ainda precisa alcançá-la

Artigo publicado como integrante do CQC de GRC.

A produtividade voltou ao centro da discussão sobre competitividade. Em ambientes cada vez mais pressionados por eficiência, fazer mais com os mesmos recursos deixou de ser apenas uma ambição gerencial. Tornou-se uma condição para permanecer competitivo.

Nesse contexto, a inteligência artificial surge como uma promessa sedutora: transformar horas de trabalho em minutos.

Ferramentas capazes de resumir relatórios, organizar dados, revisar documentos e apoiar decisões analíticas prometem ampliar rapidamente a produtividade.

O problema é que a forma como essa tecnologia começa a se disseminar dentro das organizações raramente segue o caminho institucional esperado.

Em muitas empresas, esse movimento começa de forma silenciosa — mas cada vez mais presente: o uso informal, ou shadow use, de inteligência artificial. A tecnologia entra pela porta lateral das organizações.

Um profissional utiliza uma plataforma aberta para revisar um documento; outro pede a um sistema de IA que sintetize um relatório ou organize dados para uma apresentação. Em pouco tempo, essas ferramentas passam a fazer parte do cotidiano — muitas vezes antes de qualquer iniciativa estruturada da própria organização.

A tecnologia passa a circular dentro da empresa antes mesmo de existir uma estrutura capaz de orientá-la.

Ferramentas começam a ser utilizadas sem políticas claras, sem governança de dados e, muitas vezes, sem que as equipes estejam preparadas para operá-las. Documentos internos podem ser inseridos em plataformas externas, e decisões passam a ser influenciadas por modelos cuja origem ou qualidade raramente são questionadas.

Frequentemente esse cenário é tratado apenas como um problema de risco institucional. Mas há também uma dimensão econômica.

Quando tecnologias poderosas passam a ser utilizadas sem critérios claros — e sem que as equipes estejam preparadas para absorvê-las —, a promessa de eficiência pode rapidamente se transformar em vulnerabilidade organizacional. Vazamentos de informação, decisões mal calibradas ou dependência de sistemas pouco transparentes podem comprometer exatamente aquilo que se buscava ampliar: a produtividade.

Tecnologia pode acelerar processos.

Produtividade, porém, exige algo mais: capacidade organizacional para transformar tecnologia em decisões melhores, operações mais seguras e estruturas mais eficientes.

É por isso que governança, nesse contexto, não é um freio. É a infraestrutura que permite que a tecnologia produza valor de forma consistente.

Regras claras sobre uso de dados, critérios para adoção de ferramentas e supervisão sobre decisões automatizadas não travam o avanço — são o que o sustentam.

À medida que a inteligência artificial se incorpora ao cotidiano das organizações, o desafio deixa de ser apenas tecnológico. Ele passa a ser institucional.

Produtividade sustentável depende menos da velocidade da tecnologia do que da capacidade das instituições de governá-la.

A inteligência artificial avança rapidamente. O verdadeiro teste, agora, é saber se as organizações conseguem avançar com ela.

Autor

Roberta Bortot

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