A goleada da Coreia do Sul no placar do desenvolvimento

Artigo publicado como integrante do CQC de Economia e Finanças.

No futebol, recentemente a seleção brasileira masculina aplicou uma goleada de 5 a 0 sobre a Coreia do Sul. Mas, quando o jogo é economia, tecnologia e inovação, quem aplica a goleada é a Coreia. O contraste é curioso: enquanto o Brasil celebra vitórias pontuais nos gramados, os sul-coreanos construíram, ao longo de poucas décadas, uma vitória estrutural que os colocou entre as nações mais avançadas do planeta.

Nos anos 1950, a Coreia do Sul era um país arrasado pela guerra, com renda per capita inferior à de muitos países latino-americanos. A virada começou nos anos 1960, quando o país adotou uma estratégia de desenvolvimento baseada no capitalismo de mercado. O Estado ofereceu crédito, infraestrutura e proteção inicial a grandes conglomerados privados, os chamados chaebols, como Samsung, Hyundai e LG. A contrapartida era clara: competir no mercado global, exportar e conquistar espaço. Essa lógica capitalista de competição e eficiência foi o motor que permitiu acumular capital e reinvestir em setores cada vez mais sofisticados.

A educação foi outro pilar. O país entendeu que o capitalismo moderno exige mão de obra qualificada e investiu pesadamente em escolas, universidades e centros de pesquisa. Esse investimento criou a base para a transição de uma economia agrária para uma potência industrial e, mais tarde, tecnológica. Nos anos 1980 e 1990, a Coreia do Sul já não exportava apenas produtos básicos, mas eletrônicos, automóveis e semicondutores. A pressão da concorrência internacional, típica do capitalismo, forçou as empresas a inovarem constantemente, transformando a necessidade em vantagem competitiva.

Nos anos 2000, a Coreia do Sul consolidou-se como líder em conectividade digital, com uma das internets mais rápidas do mundo e uma sociedade altamente integrada às novas tecnologias. O capitalismo, nesse estágio, não se limitou à produção de bens materiais: expandiu-se para a cultura e o entretenimento. O K-pop, os doramas e a indústria cultural se tornaram produtos globais, gerando divisas e fortalecendo a imagem do país. A cultura transformou-se em mercadoria, e a mercadoria, em poder de influência — um exemplo claro de como o capitalismo pode se desdobrar em “soft power”.

O resultado é que, em poucas décadas, a Coreia do Sul saiu da periferia do sistema para se tornar protagonista. A renda per capita disparou, a pobreza foi drasticamente reduzida e o país alcançou padrões de vida comparáveis aos das nações mais ricas. É verdade que o modelo tem contradições: a concentração de poder nos chaebols, a pressão social por desempenho e desigualdades ainda presentes. Mas, sob a ótica do capitalismo, trata-se de um caso de sucesso quase didático.

Enquanto o Brasil comemora vitórias esporádicas no futebol, a Coreia do Sul mostra que a verdadeira goleada está em transformar educação, disciplina e inovação em crescimento sustentável. No placar do desenvolvimento, a vantagem é deles – e não por acaso.

Autor

Hugo Paradella Albertino

Comentários

Últimas notícias

Inscreva-se na Newsletter