Artigo publicado como integrante do CQC de Empreendedorismo e Gestão.
Costumava-se falar de IA como um horizonte distante. Agora é o chão que pisamos, tendo em vista que em 2025, 88% das empresas já usavam IA em pelo menos uma função. Em janeiro de 2026, o Fórum Econômico Mundial (FEM) publicou seu relatório Four Futures for Jobs in the New Economy – 2030, no qual não oferece uma receita pronta, mas apresenta quatro futuros possíveis, construídos sobre dois eixos: velocidade de avanço da IA e o preparo da força de trabalho.
No citado relatório, há o cruzamento desses dois eixos e não se oferece nenhuma previsão para os próximos 4 anos. No entanto é apontada a necessidade de se escolher um dos quatro cenários mencionados. E é nesse ponto que o relatório se torna incômodo para quem ocupa cadeiras de alta gestão, bem como em conselhos consultivos de empresas, especialmente familiares.
Dos quatro cenários, apenas um é considerado desejável: a Co-Pilot Economy, onde o progresso gradual encontra uma força de trabalho qualificada. Colaboração humano-IA, com crescimento sem ruptura social. Os outros três têm nomes que não precisam de tradução: Displacement, Stalled Progress, e um quarto, Supercharged Progress, onde a produtividade dispara mas a desigualdade aprofunda porque a governança não acompanha.
O que separa o cenário desejável dos outros três não é a tecnologia. É a decisão antecipada de investir em desenvolvimento de talentos.
Nesse ponto a conversa torna-se inquietante. O relatório projeta que mais de 40% das competências atuais mudarão ou se tornarão obsoletas até 2030.
Para o Espírito Santo isso não é uma abstração: é o técnico de siderurgia do Tubarão, o analista de exportação de Vitória ou o coordenador de fábrica da Serra que estarão exercendo funções que hoje ainda não existem, ou mesmo que nem sequer estarão mais exercendo função nenhuma.
A pergunta que o FEM coloca não é se isso vai acontecer. É quem financia a transição. Até agora, a resposta da maioria das empresas capixabas tem sido: o próprio trabalhador.
Isso é uma escolha. Não é a única disponível, mas é a que está sendo feita por indiferença em cada reunião de orçamento que classifica treinamento como custo e headcount reduzido como eficiência.
Empresas que tratam talento como variável de custo constroem exatamente o que pagaram: custo reduzido. Sem o julgamento que não aparece em relatório nenhum, sem o conhecimento institucional que leva anos para se formar, sem a lealdade que nenhuma automação replica.
Em um estado exportador de mármore, celulose, aço e café, com base produtiva intensiva em mão de obra qualificada, essa indiferença tem consequência específica. Não é um risco difuso. É uma transferência consciente de risco para quem menos pode absorvê-lo.
O FEM repete, em seu relatório, uma palavra com uma insistência proposital: escolha. O futuro do trabalho não é determinado pela tecnologia. É determinado por quem decide como ela é usada, e a serviço de quem.
O Espírito Santo ainda não escolheu. Mas em cada reunião de gestão ou de conselho que acontece, uma escolha está sendo feita, mesmo sem que se perceba.