A IA pode informar, mas não pode votar por nós

O projeto Boca de IA, conduzido pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, acompanha como sistemas de inteligência artificial respondem a perguntas eleitorais no Brasil[1]. Os testes incluem solicitações diretas sobre qual seria o melhor candidato e em quem o usuário deveria votar. À primeira vista, o principal problema estaria no comportamento das plataformas, que podem hierarquizar candidaturas e influenciar escolhas mesmo quando deveriam evitar recomendações. Essa preocupação é legítima, embora não encerre a discussão. Quanto mais fácil se torna obter uma resposta pronta, apresentada com segurança e clareza, maior é a responsabilidade do eleitor de preservar a autoria da própria decisão.

Essa responsabilidade começa pela maneira como a resposta dos sistemas de inteligência artificial é interpretada. Na terceira rodada do Boca de IA, realizada em junho de 2026, 79% das respostas analisadas apresentaram alguma forma de ranqueamento, e quatro das sete ferramentas adotaram esse comportamento em todos os testes. Por exemplo, ao tratar da disputa pelo governo de São Paulo, o Grok afirmou que Tarcísio de Freitas era “de longe, o favorito” e associou determinadas prioridades políticas diretamente à escolha desse candidato. Na mesma resposta, classificou outros concorrentes como candidaturas que serviriam mais para protesto ou marcação de posição ideológica. O ChatGPT, por sua vez, concentrou a disputa paulista em dois nomes e reduziu a visibilidade das demais opções.

Esses episódios demonstram como as plataformas são capazes de transformar projeção eleitoral e quantidade de informações disponíveis em critérios de relevância política. Diante disso, cabe ao eleitor compreender que uma lista organizada não corresponde necessariamente a uma avaliação neutra e que popularidade, viabilidade eleitoral e qualidade de uma proposta são dimensões diferentes.

Nesse contexto, a responsabilidade individual não pode ser confundida com a culpabilização do cidadão pelos erros da tecnologia. A IA reduz o custo de busca, resume informações dispersas e facilita comparações, o que explica sua utilidade. Além disso, essa conveniência também pode induzir uma delegação gradual do julgamento, sobretudo quando verificar os fundamentos da resposta exige mais tempo do que aceitá-la. Por essas razões, o dever do eleitor começa antes da consulta, com perguntas que não entreguem à ferramenta a decisão final, e prossegue com o exame das fontes, a comparação com informações oficiais e a distinção entre dado verificável e interpretação automatizada. Afinal, a tecnologia não define os valores, as prioridades e as consequências que devem orientar uma escolha pessoal.

Portanto, a inteligência artificial como ferramenta para conhecer candidatos é bastante útil, mas não deve substituir a reflexão necessária para a escolha entre eles. A tecnologia pode ampliar o acesso à informação, esclarecer temas complexos e ajudar a comparar propostas, desde que sua função termine antes do julgamento político. Verificar uma fonte, procurar informações omitidas e questionar a ordem em que as candidaturas foram apresentadas podem parecer cuidados modestos. Todavia, essas medidas preservam a liberdade de escolha ao longo do processo eleitoral. Se de um lado a IA pode organizar informações para a decisão, de outro a responsabilidade por transformar essas informações em escolha precisa continuar pertencendo ao cidadão.


[1] https://www.bocadeia.com.br/. Acesso em: 22.08.2026.

Autor

Hugo Schneider Côgo

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