O setor elétrico brasileiro passa por uma transformação estrutural que deveria ocupar espaço relevante nas propostas dos próximos governos. O desafio deixou de ser simplesmente expandir a capacidade de geração. O Brasil possui uma matriz elétrica diversificada, predominantemente renovável e com forte crescimento da energia solar. O problema que emerge é outro: como administrar uma quantidade crescente de energia intermitente, descentralizada e produzida em horários que nem sempre coincidem com aqueles em que o sistema mais precisa dela.
Essa mudança transforma energia elétrica em uma agenda de competitividade. Segurança do suprimento, custo da energia e qualidade da infraestrutura elétrica influenciam diretamente decisões de investimento, produtividade industrial e capacidade de atração de novos empreendimentos.
Um sistema com muita energia, mas que precisa de flexibilidade
A expansão da energia solar ocorreu em velocidade extraordinária. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, somente a micro e minigeração distribuída solar encerrou 2025 com aproximadamente 44,7 GW de capacidade instalada. O crescimento é positivo do ponto de vista da diversificação e descarbonização da matriz, mas criou um novo problema operacional. Durante períodos de elevada incidência solar, especialmente entre o final da manhã e o início da tarde, a geração pode crescer justamente quando o consumo líquido observado pelo sistema está relativamente baixo.
O ONS alerta que a expansão da geração distribuída vem reduzindo a carga líquida durante o dia, ampliando a necessidade de aumento rápido da geração convencional no final da tarde e provocando, em determinados locais, inversão do fluxo de potência. A MMGD já supera 43 GW nos estudos mais recentes do operador e altera de forma estrutural a operação do Sistema Interligado Nacional.
O problema aparece de forma mais evidente no chamado curtailment, quando parte da geração disponível precisa ser reduzida ou cortada por limitações elétricas ou porque há mais oferta do que o sistema consegue absorver naquele momento. As projeções do ONS para 2026 a 2029 mostram que os cortes estão concentrados principalmente entre 9h e 16h e podem superar 40 GW a 50 GW nos cenários mais críticos, sobretudo em fins de semana e feriados. Temos, portanto, um aparente paradoxo: em algumas horas existe energia renovável excedente e, poucas horas depois, o sistema precisa de potência e flexibilidade para atender à elevação da carga.
Geração distribuída: de problema operacional para parte da solução
A resposta não deveria ser interromper a expansão da geração distribuída. O caminho mais eficiente é mudar a maneira como ela se integra ao sistema. Hoje, milhões de pequenos sistemas solares funcionam essencialmente de forma passiva: produzem quando há sol e injetam seus excedentes na rede independentemente das necessidades instantâneas do sistema. Para o ONS, uma parcela crescente desses recursos não possui supervisão e capacidade de controle em tempo real.
A próxima etapa precisa ser transformar esses consumidores em participantes ativos. Uma residência, condomínio, comércio ou indústria com painéis solares, bateria, veículo elétrico e equipamentos inteligentes pode produzir, consumir, armazenar e eventualmente devolver energia à rede. Em vez de simplesmente injetar eletricidade ao meio-dia, quando existe abundância, poderia armazená-la e reduzir seu consumo da rede entre o final da tarde e o início da noite. A geração distribuída deixa, assim, de ser apenas geração e passa a constituir um recurso energético distribuído.
Essa mudança exige quatro elementos combinados: armazenamento, medição inteligente, tarifas que transmitam sinais econômicos adequados ao consumidor e mecanismos de resposta da demanda. O próprio ONS destaca que os recursos distribuídos não devem ser vistos somente como risco: quando possuem gerenciamento dinâmico, podem fornecer flexibilidade e contribuir para a estabilidade do sistema. O objetivo, portanto, não deve ser simplesmente produzir mais energia solar. Deve ser aumentar a quantidade de energia renovável que efetivamente consegue ser utilizada.
O que Brasília está fazendo
Parte dessa transição já começou. A reforma do setor elétrico avançou em temas como abertura do mercado, racionalização de subsídios, novos sinais econômicos, regulamentação de armazenamento e transformação do papel das distribuidoras. O governo federal também trabalha na ampliação da resposta da demanda e na preparação para maior abertura do mercado livre.
Outro avanço importante é o armazenamento. Em junho de 2026, o Ministério de Minas e Energia publicou as diretrizes para o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade voltado a sistemas de armazenamento por baterias em larga escala. O desenho prevê inclusive vantagem competitiva para projetos instalados em pontos da rede nos quais proporcionem maiores benefícios ao sistema.
Essa direção é correta porque o valor de uma bateria não está apenas na quantidade de energia armazenada, mas na capacidade de deslocá-la no tempo, absorvendo excedentes quando existe muita geração e devolvendo energia quando o sistema precisa. Também estão em desenvolvimento iniciativas envolvendo maior coordenação entre ONS e distribuidoras, gestão dos excedentes de energia nas redes de distribuição e aperfeiçoamento das regras de conexão e modelagem da geração distribuída.
Ainda assim, há espaço para avançar. A regulação deve permitir que baterias, consumidores, veículos elétricos e agregadores sejam remunerados pelos serviços que podem oferecer ao sistema. É preciso também aprimorar sinais tarifários para incentivar consumo e armazenamento nos períodos de abundância e redução da demanda nos horários de maior pressão. Em outras palavras, o sistema elétrico do futuro deverá remunerar não apenas quem produz energia, mas também quem oferece flexibilidade.
O Espírito Santo não precisa esperar Brasília
Embora grande parte da regulação do setor elétrico seja federal, existe uma agenda importante que pode ser conduzida pelos estados. O Espírito Santo já possui uma plataforma institucional para isso. O Programa GERAR, criado pela Lei Estadual nº 11.253/2021, trabalha com instrumentos regulatórios, incentivos tributários, pesquisa e desenvolvimento, acesso à rede, desenvolvimento regional e financiamento. Atualmente, o programa contempla inclusive isenção de ICMS para minigeração distribuída solar de até 5 MW e incentivos associados ao Invest-ES.
O próximo passo poderia ser transformar essa política de incentivo à geração renovável em uma política mais ampla de energia, armazenamento e flexibilidade. O Estado poderia estruturar um programa de incentivo à instalação de sistemas combinados de geração solar e baterias em empresas, condomínios, hospitais, escolas e prédios públicos. Os incentivos poderiam privilegiar projetos que reduzam demanda nos horários críticos ou contribuam para aliviar pontos congestionados da rede.
Outra frente seria transformar prédios públicos em laboratórios de redes elétricas inteligentes, combinando geração solar, baterias, medidores inteligentes e gestão automatizada do consumo. Também seria possível utilizar os instrumentos estaduais de financiamento e desenvolvimento econômico para estimular investimentos em armazenamento, equipamentos elétricos, softwares de gerenciamento de energia e infraestrutura para veículos elétricos.
Mais importante ainda, a política industrial e a política energética podem conversar entre si. Novos empreendimentos industriais, data centers, centros logísticos, portos e projetos eletrointensivos representam aumento de demanda. Em um sistema que começa a enfrentar excedentes em determinados horários, novas cargas bem localizadas e com alguma flexibilidade podem representar não apenas consumidores, mas ativos relevantes para o equilíbrio elétrico.
Energia como vantagem competitiva
O debate sobre o setor elétrico não deveria se limitar a decidir quais fontes de geração devem crescer. Essa discussão pertence, em grande medida, ao passado. A pergunta para os próximos anos será como construir um sistema capaz de combinar geração renovável, armazenamento, transmissão, distribuição, digitalização e consumidores flexíveis.
Para o Espírito Santo, essa agenda pode representar uma oportunidade adicional. Um Estado capaz de oferecer infraestrutura elétrica confiável, energia competitiva e soluções modernas de integração de novos consumidores terá melhores condições de disputar investimentos industriais e tecnológicos.
A geração distribuída ilustra bem essa transformação. Ela pode aumentar a complexidade do sistema quando funciona de maneira isolada e sem sinais econômicos adequados. Mas pode se tornar parte da solução quando associada a armazenamento, inteligência, resposta da demanda e coordenação com a rede. O desafio dos próximos governos, portanto, não será simplesmente produzir mais eletricidade. Será construir um sistema capaz de usar melhor a energia que já conseguimos produzir. E essa é uma agenda na qual Brasília tem papel central, mas na qual o Espírito Santo não precisa esperar.