Nota Executiva – Ratificação de acordos com EFTA e Singapura: mais um passo na reinserção comercial do bloco sul-americano

Contextualização

A Câmara dos Deputados aprovou recentemente os acordos comerciais entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e entre o Mercosul e Singapura. Embora ambos ainda dependam da apreciação do Senado Federal para conclusão do processo legislativo brasileiro, a votação representa um marco importante na política comercial do país.

Embora o mercado da EFTA seja relativamente pequeno em termos populacionais, trata-se de um grupo de países com elevado poder de compra, forte presença em setores intensivos em tecnologia, serviços financeiros, inovação e investimentos produtivos. Em conjunto, Mercosul e EFTA representam aproximadamente 300 milhões de habitantes e um PIB superior a US$ 4 trilhões. O acordo com Singapura também é muito importante por se tratar de um grande hub logístico asiático, com capilaridade de distribuição por diversos países.

Mais do que acordos isolados, as aprovações sinalizam uma mudança gradual na postura do Mercosul em relação à inserção internacional. Historicamente caracterizado por uma estratégia relativamente mais fechada quando comparado a outros blocos econômicos, o Mercosul passa a construir uma rede mais ampla de acordos comerciais voltada à diversificação de mercados, atração de investimentos e integração às cadeias globais de valor.

Os dois acordos aprovados possuem naturezas complementares. O acordo com a EFTA amplia o acesso a economias de elevada renda, forte capacidade de investimento e elevada demanda por produtos industrializados, minerais e agroindustriais. Já Singapura representa uma das principais plataformas logísticas e financeiras da Ásia, funcionando como porta de entrada para uma das regiões economicamente mais dinâmicas do mundo. Além dos ganhos comerciais diretos, o acordo pode facilitar a integração das empresas do Mercosul às cadeias globais de suprimentos e ampliar oportunidades de investimento e cooperação tecnológica.

A nova fase da abertura comercial do Mercosul

A aprovação dos acordos não deve ser analisada de forma isolada. Ela faz parte de um movimento mais amplo de reposicionamento estratégico do Mercosul no comércio internacional. Durante grande parte de sua história, o bloco foi frequentemente caracterizado por elevados níveis de proteção tarifária e por uma limitada rede de acordos comerciais relevantes quando comparado a outros blocos econômicos. Esse modelo contribuiu para reduzir a integração das economias do Mercosul às cadeias globais de valor, limitando ganhos de produtividade e competitividade.

Nos últimos anos, entretanto, observa-se uma inflexão importante. O acordo com Singapura, assinado em 2023, foi o primeiro tratado comercial do Mercosul com um país asiático. Posteriormente vieram os avanços nas negociações com a União Europeia, a conclusão do acordo com a EFTA, a retomada das negociações com o Canadá e as aproximações com Emirados Árabes Unidos e Índia.

Em conjunto, esses movimentos indicam uma estratégia de diversificação geográfica dos parceiros comerciais e uma tentativa de reposicionar o Mercosul em um cenário global marcado pela reorganização das cadeias produtivas, pelo aumento das tensões geopolíticas e pela crescente competição por investimentos. Em um contexto global marcado pelo aumento das tensões geopolíticas, pelo uso crescente de tarifas como instrumento de política externa e pela reorganização das cadeias globais de suprimentos, ampliar mercados e diversificar parceiros comerciais tornou-se uma necessidade estratégica para países exportadores.

Próximos passos

Apesar da aprovação na Câmara dos Deputados, ambos os acordos ainda precisam ser apreciados pelo Senado Federal. Após a conclusão do processo legislativo brasileiro, a implementação dependerá também da conclusão dos procedimentos de ratificação pelos demais países signatários.

Paralelamente, o desafio passa a ser operacionalizar os benefícios previstos no tratado. Isso inclui adaptação regulatória, harmonização de normas técnicas, fortalecimento dos mecanismos de certificação, adequação sanitária e ampliação da capacidade das empresas de aproveitar efetivamente as novas oportunidades comerciais. Experiências internacionais mostram que acordos comerciais produzem seus maiores benefícios quando acompanhados por reformas internas voltadas à competitividade, infraestrutura, ambiente de negócios e produtividade.

Oportunidades

O acordo cria oportunidades relevantes para diversos setores exportadores do Mercosul, especialmente aqueles ligados ao agronegócio, alimentos processados, mineração, produtos industriais e serviços. Também amplia o acesso a mercados de alta renda e reduz a dependência de um número limitado de destinos de exportação.

Outro aspecto relevante é o potencial de atração de investimentos. Países da EFTA possuem forte tradição em investimentos internacionais, inovação tecnológica, finanças e infraestrutura. A redução de barreiras comerciais tende a aumentar a integração econômica e a estimular novos fluxos de capital. Para o Espírito Santo, estado com forte vocação exportadora e presença relevante nos setores de rochas ornamentais, celulose, mineração, café, proteína animal e logística portuária, a ampliação dos mercados internacionais pode representar novas oportunidades de diversificação e agregação de valor.

Riscos e desafios

Os benefícios, entretanto, não serão automáticos. A maior abertura comercial também amplia a concorrência para empresas domésticas que operam em setores menos competitivos ou excessivamente protegidos. Além disso, cresce a importância de temas regulatórios que vêm ganhando espaço no comércio internacional, como rastreabilidade, sustentabilidade, governança ambiental, certificações técnicas e padrões de qualidade. Em muitos casos, as barreiras não tarifárias passam a ser tão relevantes quanto as tarifas tradicionais.

Outro risco está relacionado à falsa percepção de que a assinatura de acordos comerciais, por si só, é suficiente para elevar a competitividade econômica. Sem avanços em produtividade, infraestrutura, qualificação da mão de obra, simplificação regulatória e segurança jurídica, parte dos ganhos potenciais pode deixar de ser capturada.

Conclusão

A aprovação dos acordos com a EFTA e Singapura representa mais do que uma agenda de redução tarifária. Trata-se de uma sinalização de que o Mercosul começa a abandonar uma postura predominantemente defensiva e passa a buscar maior integração à economia mundial. Em um ambiente internacional cada vez mais competitivo e fragmentado, ampliar mercados tornou-se uma necessidade estratégica. Entretanto, acordos comerciais criam oportunidades, mas não garantem resultados. Os benefícios dependerão da capacidade das empresas e dos governos de aumentar produtividade, reduzir custos sistêmicos e adaptar-se às novas exigências dos mercados globais.

Para o Brasil e para estados exportadores como o Espírito Santo, o momento exige uma mudança de mentalidade. A competitividade do futuro dependerá menos da proteção de mercados domésticos e cada vez mais da capacidade de competir globalmente em qualidade, inovação, sustentabilidade e eficiência produtiva.

Autor

Felipe Storch Damasceno

Economista-Chefe do IBEF-ES

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