1. Contextualização
O debate sobre minerais críticos e terras raras mudou de patamar porque passou a tratar de segurança econômica. Esses insumos sustentam a transição energética, a digitalização e segmentos sensíveis como defesa e espaço, mas o ponto geopolítico central não é apenas ter minério. É controlar as etapas que transformam minério em capacidade produtiva: beneficiamento, refino, separação e materiais avançados. A própria Agência Internacional de Energia destaca que a demanda por minerais-chave segue crescendo e, ao mesmo tempo, que riscos à segurança de suprimento estão se proliferando, com aumento de medidas de controle de exportação desde 2023.
Quando a oferta e o processamento ficam concentrados, o fornecimento vira alavanca de poder. Controles de exportação passam a ser usados para proteger indústrias domésticas, capturar etapas de maior valor e reduzir vulnerabilidades externas. A OCDE mostra que restrições à exportação em matérias-primas industriais, incluindo insumos críticos, estão se ampliando e já afetaram uma parcela relevante do comércio global no período recente, refletindo essa virada para políticas de segurança econômica. Na mesma linha, a União Europeia aprovou um marco para tratar a agenda como estratégia industrial, com metas explícitas para ampliar extração, processamento e reciclagem e com limite de dependência de um único país por material estratégico até 2030, sinalizando que o tema é tratado como autonomia produtiva.
É nesse contexto que os acordos firmados pelo Brasil com a Índia e, nesta semana, com a Coreia do Sul devem ser lidos. Eles não são detalhes diplomáticos: sinalizam que minerais críticos passaram a integrar a agenda de segurança de suprimento e de política industrial, com expectativa de cooperação para fortalecer cadeias resilientes, atrair investimentos e aproximar tecnologia e produção. O problema é que a geopolítica dos minerais críticos premia quem combina recurso natural com política de Estado. Sem um arranjo estável de prioridades, governança e instrumentos, o país tende a capturar pouco valor, ficando na etapa inicial e sujeito a ciclos e a barganhas. O Brasil começou a se mover, mas ainda não consolidou uma política de Estado plenamente estruturada para esse mercado.
2. O acordo Brasil–Coreia do Sul: integração produtiva, minerais críticos e tecnologia
O anúncio desta semana reposiciona a relação bilateral em um patamar mais ambicioso: não se trata apenas de ampliar comércio, mas de estruturar uma parceria estratégica que conecte insumos minerais a tecnologia, indústria e cadeias globais de valor. Os dois países acordaram em elevar a relação a uma parceria estratégica e assinaram 10 memorandos em áreas como minerais essenciais, economia digital (incluindo IA), agricultura, saúde e biotecnologia, e adotaram um plano de ação de quatro anos que inclui cooperação em minerais estratégicos, defesa e espaço.
Do ponto de vista econômico, o principal valor do acordo está na complementaridade. A Coreia do Sul é uma economia com base industrial avançada e elevada capacidade tecnológica em segmentos intensivos em materiais e conhecimento, enquanto o Brasil combina dotação mineral e escala potencial de oferta. Essa combinação cria uma rota para sair do padrão de exportação de insumos e avançar para arranjos mais sofisticados: contratos de longo prazo, investimento produtivo, desenvolvimento de fornecedores, padrões técnicos e, em casos bem desenhados, cooperação para internalização de tecnologia e manufatura avançada. A lógica é simples: para atrair plantas e etapas intermediárias, não basta ter recurso, é preciso transformar recurso em previsibilidade de suprimento, qualidade e ambiente de investimento, porque o investidor avalia risco de execução, custo total e acesso a mercado.
Nesse ponto, a dimensão “acesso a mercados” entra como variável estratégica. Os líderes expressaram intenção de retomar as negociações do acordo comercial Coreia do Sul–Mercosul, que estavam suspensas após divergências sobre proteção a bens agrícolas e manufaturados. A relevância para minerais críticos é direta: regras de origem, previsibilidade tarifária e desenho regulatório de um eventual acordo influenciam a decisão de localizar etapas industriais, porque determinam se o país será apenas provedor de matéria-prima ou plataforma produtiva integrada a mercados e cadeias tecnológicas.
O governo brasileiro enquadra a iniciativa como um marco institucional permanente para aprofundar relações econômicas bilaterais e fortalecer integração produtiva, com ênfase em inovação, agregação de valor e empregos qualificados, e explicita que o acordo contempla integração e resiliência de cadeias de valor, inclusive em minerais críticos, além de manufatura avançada, economia digital e facilitação do comércio e investimentos. O texto também registra a criação de uma Comissão Bilateral para acompanhar ações e permitir grupos de trabalho com participação do setor privado, elemento importante para dar governança e continuidade a uma agenda que depende de projetos e execução, não só de intenção.
Em síntese, o acordo Brasil–Coreia do Sul é economicamente relevante porque tenta encurtar a distância entre “ter recursos” e “ter cadeia”: ao acoplar minerais críticos a integração produtiva, tecnologia e mecanismos de implementação, ele cria condições para que o Brasil negocie um papel mais alto na hierarquia de valor, desde que consiga transformar essa arquitetura em projetos financiáveis, com prazos, padrões técnicos e previsibilidade regulatória.
3. O acordo Brasil Índia: o que foi assinado, o que ele pode destravar e o que ele não resolve sozinho
O instrumento central foi um memorando de entendimento sobre cooperação em elementos de terras raras e minerais críticos, assinado no contexto da visita de Estado de Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, com o tema explicitamente associado à construção de cadeias de suprimento mais resilientes. Em termos políticos, ele sinaliza convergência de interesses entre duas grandes economias do Sul Global: para a Índia, reduzir vulnerabilidades de suprimento em insumos estratégicos; para o Brasil, reforçar o papel de fornecedor confiável e, principalmente, negociar acesso a etapas de maior valor agregado.
O texto oficial da declaração conjunta do governo indiano é relevante porque explicita o escopo pretendido da cooperação ao longo da cadeia. Os líderes registram expectativa de que o memorando dê impulso à cooperação bilateral, fortalecendo cadeias de valor e competitividade global em exploração, mineração, processamento, reciclagem e refino de minerais críticos. Essa formulação é importante porque aponta uma ambição de cadeia, não apenas de comércio de minério, e também porque aproxima o debate de uma agenda industrial que inclui tecnologia, padrões de sustentabilidade e capacidade de execução.
O acordo também aparece conectado à cadeia do aço, o que ajuda a entender o racional econômico indiano. A declaração conjunta indica que as partes concordaram em intensificar discussões para avançar na cooperação da cadeia de valor do aço, incluindo facilitação de investimentos e cooperação tecnológica. A cobertura da Reuters ressalta que a cooperação em mineração e minerais busca apoiar expansão de capacidade e acesso a matérias-primas e tecnologias para o setor siderúrgico indiano, com a meta de elevar o comércio bilateral para acima de US$ 20 bilhões em cinco anos. Na prática, isso abre espaço para o Brasil negociar não só venda de recursos, mas projetos com previsibilidade de demanda e, potencialmente, maior integração industrial, desde que existam instrumentos domésticos para viabilizar processamento e transformação.
Ao mesmo tempo, é preciso calibrar expectativas no curto prazo. A avaliação reportada por agentes do setor é de que o memorando tem peso político e diplomático e não estabelece obrigações jurídicas nem compromissos financeiros, sem prever financiamento, metas claras ou projetos específicos. Esse ponto é decisivo: o memorando pode ser um gatilho para criar grupos de trabalho e amadurecer projetos, mas o efeito econômico dependerá do “pós assinatura”, isto é, da capacidade de o Brasil ofertar um ambiente de investimento com previsibilidade regulatória, financiamento de longo prazo e estratégia de agregação de valor que transforme cooperação em plantas, tecnologia e exportações de maior conteúdo industrial.
4. Brasil e Espírito Santo como plataforma de cadeia e logística para minerais críticos.
Os acordos com a Índia e a Coreia do Sul criam pontos de apoio relevantes para transformar uma oportunidade difusa em uma agenda mais concreta de inserção internacional. A sinalização política é de cooperação ao longo da cadeia, não apenas na extração, com ênfase em valor agregado, tecnologia e previsibilidade de suprimento.
Para o Brasil, isso abre uma janela de reposicionamento geoeconômico: o país pode se apresentar como fornecedor confiável em um mercado em que segurança de suprimento virou prioridade e contratos de longo prazo tendem a ser mais valiosos do que vendas oportunistas. O ganho potencial, porém, depende de sair do padrão de exportação de etapas iniciais. O acordo pode funcionar como âncora para negociações que incluam previsibilidade de demanda e cooperação tecnológica, mas essa transição exige projetos e ambiente doméstico que viabilizem processamento e transformação, justamente as etapas onde se captura valor e se reduz vulnerabilidade a ciclos de preço.
O Espírito Santo pode ser apresentado como uma plataforma logística e industrial em formação para cadeias intensivas em comércio exterior, combinando novos terminais portuários, projetos ferroviários e instrumentos de atração de investimentos. No litoral norte, Barra do Riacho já abriga o Portocel, terminal localizado em Aracruz e reconhecido oficialmente como especializado em celulose, operando também com outras cargas, o que consolida a região como ponto relevante de escoamento. A Vports, como autoridade portuária responsável pela administração dos terminais de Vitória, Vila Velha e Barra do Riacho, protocolou no Iema o licenciamento ambiental para implantar um novo projeto portuário na área e vem conduzindo conversas com potenciais clientes, enquanto estrutura a atração de investidores para viabilizar o desenvolvimento. No mesmo eixo, o terminal do Grupo Imetame em Aracruz reforça a tese de adensamento do hub, com a primeira fase de operação prevista para 2026, em implantação gradual.
No sul do estado, o Porto Central amplia a ambição logística por se tratar de um complexo multipropósito de águas profundas em desenvolvimento, com implantação em fases e licenças ambientais emitidas para a Fase 1, criando uma perspectiva de escala e calado compatíveis com cargas de grande volume e integração a áreas de influência mais extensas. No norte, o projeto do terminal de uso privativo da Petrocity em Urussuquara, divulgado como âncora logística do grupo e associado a etapas de licenciamento e planos de integração modal, adiciona um vetor adicional de capacidade portuária e de desenho de corredores de longa distância.
O diferencial, porém, depende de intermodalidade. A ANTT descreve a EF-118 como ferrovia planejada para conectar RJ ao ES e integrar a malha do Sudeste, com objetivo de acesso ferroviário a terminais portuários, o que, se viabilizado, pode reduzir custo logístico sistêmico e ampliar a competitividade de corredores exportadores. Em paralelo, a base oficial de ferrovias outorgadas por autorização registra trechos como a EF-030 e o arranjo EF-456/EF-030, conectando o norte do Espírito Santo a Minas Gerais e ao Distrito Federal, reforçando a narrativa de um complexo ferroviário em debate e em evolução institucional, embora ainda cercado por incertezas de cronograma, financiamento e execução.
Além da infraestrutura dura, o estado pode fortalecer sua proposta de valor com instrumentos de ambiente de negócios. A ZPE de Aracruz foi criada por decreto federal e é apresentada por órgãos públicos como a primeira ZPE privada do país, o que, em tese, aumenta a atratividade para plantas voltadas à exportação, com regimes e governança próprios de ZPE. Complementarmente, o Parklog ES é descrito pelo governo estadual como uma plataforma de integração logística que articula portos, aeródromos, ZPE e conexões multimodais, com foco em reduzir custos sistêmicos e atrair investimentos, o que ajuda a transformar projetos isolados em uma narrativa coordenada de corredor logístico.
Os desafios para materializar essa tese são claros e precisam estar explicitados. O primeiro é coordenação e governança: projetos portuários e ferroviários têm maturação longa, múltiplos atores e alta dependência de licenças, desapropriações e acessos, o que exige previsibilidade regulatória e capacidade de execução para transformar anúncios em entregas efetivas. O segundo é viabilidade econômico-financeira: sem contratos âncora e estrutura de financiamento de longo prazo, persistem riscos de demanda (a carga não se materializa), de cronograma (atrasos de obras e acessos) e regulatórios (prazos e condicionantes), o que impede fechar a conta da intermodalidade e reduz o ganho potencial de custo logístico na escala necessária. O terceiro é o last mile e a retroárea: portos competitivos dependem de dragagem, acessos rodoviários e ferroviários, pátios, armazenagem e serviços aduaneiros eficientes, além de energia e mão de obra técnica para suportar operações e, sobretudo, etapas de maior valor agregado. Por fim, há o desafio estratégico: conectar esses ativos a uma agenda de industrialização exportadora, para que o Espírito Santo não seja apenas canal de escoamento, mas também plataforma de transformação, o que depende de políticas consistentes de atração, qualificação e integração com cadeias globais.
A oportunidade de valor agregado para o ES não deve ser formulada como promessa de industrialização automática, mas como uma tese de competitividade condicional. Se os acordos com a Índia e Coréia do Sul evoluirem para fluxos comerciais mais estáveis e para parcerias industriais, o estado pode se colocar como plataforma para serviços logísticos e para etapas selecionadas de transformação conectadas a um ambiente portuário e exportador. Em cadeias de minerais críticos, isso pode significar começar por elos intermediários viáveis e escaláveis, que elevem a densidade industrial e gerem aprendizagem sem exigir, no curto prazo, domínio completo das etapas mais complexas de refino e separação: beneficiamento, preparação de produtos intermediários, logística especializada, armazenagem e operações industriais associadas à exportação, desde que haja segurança regulatória, escala e viabilidade econômica.
O elemento adicional desses acordos é reduzir parte da incerteza do lado da demanda e abrir espaço para parcerias tecnológicas. Índia e Coreia do Sul têm ambições industriais que valorizam fornecedores capazes de entregar regularidade e confiabilidade logística, e isso pode orientar contratos, projetos e investimentos se houver governança e competitividade domésticas.
5. Competitividade sistêmica e política de Estado
Os instrumentos firmados com a Índia e com a Coreia do Sul criam janelas geoeconômicas, mas só se convertem em investimento produtivo e exportação de maior valor agregado se o país reduzir riscos e construir governança estável para uma cadeia que é estratégica por definição. O contexto internacional é de segurança econômica: a Agência Internacional de Energia (IEA) vem destacando que os riscos à segurança de suprimento estão se multiplicando e que, desde 2023, aumentaram medidas de controle de exportação e outras intervenções que tornam a cadeia mais sensível a decisões soberanas. A OCDE também registra forte aumento de restrições de exportação em matérias-primas críticas ao longo do tempo recente, reforçando que o mercado passou a ser gerido como política industrial e geopolítica.
Nesse ambiente, parceiros estratégicos tendem a exigir três atributos do fornecedor: previsibilidade de oferta, qualidade técnica consistente e capacidade de entregar dentro de padrões de conformidade e rastreabilidade. É aqui que aparecem as fragilidades estruturais do Brasil, especialmente relevantes nas etapas de processamento, refino e transformação, que são justamente as que capturam mais valor.
O primeiro gargalo é o custo de capital e o desenho de financiamento de longo prazo. Projetos de mineração e, principalmente, de processamento químico e metalúrgico são intensivos em CAPEX, têm maturação longa e carregam risco tecnológico. Em juros elevados, o custo de carregar investimento e capital de giro sobe, o prêmio de risco se amplia e o investidor tende a preferir operações mais curtas e menos complexas, o que empurra o país de volta para a exportação de etapas iniciais. A manutenção da Selic em patamar alto reforça esse ambiente financeiro restritivo.
O segundo gargalo é produtividade e eficiência sistêmica. Cadeias críticas demandam controle de processo, repetibilidade, padrões de qualidade e disciplina logística. Com produtividade fraca, a indústria perde capacidade de competir em custo total e confiabilidade. O dado é simples, mas duro: a produtividade por hora efetivamente trabalhada variou apenas 0,1% em 2024, após alta de 2,3% em 2023, segundo o Observatório da Produtividade da FGV IBRE, sinalizando um ambiente ainda frágil para sustentar saltos industriais competitivos.
O terceiro gargalo é capital humano e densidade tecnológica. Nas etapas intermediárias de maior valor, a restrição central muitas vezes não é geológica, é de competências: química, metalurgia, materiais, instrumentação, automação, metrologia, engenharia de processos e qualidade. A evidência de prêmio salarial elevado do ensino superior no Brasil é consistente com escassez relativa de qualificação e com custos maiores para formar e reter mão de obra avançada em escala.
O quarto gargalo é previsibilidade regulatória e coordenação institucional. Minerais críticos exigem rigor socioambiental, mas também exigem processo decisório coordenado, prazos críveis, segurança jurídica e estabilidade de regras, porque incerteza regulatória entra direto no custo de capital e na taxa mínima de retorno. Sem coordenação, projetos travam, atrasam, encarecem e perdem janela.
É justamente aqui que a lacuna de política de Estado se torna o fator mais decisivo. Memorandos bilaterais são catalisadores, mas não substituem um arranjo nacional duradouro. O próprio governo federal reconhece a necessidade de estruturar a agenda e informou que iniciou estudos para construir uma Estratégia Nacional de Terras Raras, o que sinaliza direção, mas também indica que a arquitetura ainda está em formação.
Na prática, política de Estado, neste mercado, significa cinco entregas bem objetivas. Uma definição operacional de criticidade, com critérios e atualização periódica. Um mapa de prioridades por mineral e por etapa de cadeia, deixando claro onde o país quer capturar valor. Instrumentos estáveis de financiamento e mitigação de risco para etapas intensivas em capital e tecnologia. Coordenação entre mineração, indústria, ciência e tecnologia, infraestrutura e comércio exterior. E uma governança regulatória que combine rigor com previsibilidade e prazos compatíveis com investimento de longo prazo.
Sem esse pacote, acordos tendem a gerar ganhos diplomáticos e comerciais pontuais, mas pouco adensamento industrial. Com esse pacote, parcerias com Índia e Coreia do Sul podem virar contratos de longo prazo, cooperação tecnológica e projetos que elevem o conteúdo industrial das exportações, conectando recursos naturais a competitividade e valor agregado.
6. Conclusão
Os acordos firmados com Índia e Coreia do Sul colocam minerais críticos e terras raras no centro de uma agenda externa que já não é apenas comercial. Eles se inserem em um ambiente internacional em que segurança de suprimento virou variável de competitividade e de soberania industrial, com cadeias expostas a concentração de processamento e a um aumento recente de controles e restrições.
Por isso, o ponto decisivo não é assinar acordos, é transformar potencial mineral em capacidade de cadeia. O governo federal iniciou estudos para construir uma Estratégia Nacional de Terras Raras, com foco em atrair investimentos responsáveis, fortalecer base industrial e tecnológica e mitigar riscos nas cadeias globais. Isso é um passo na direção correta, mas também evidencia que o país ainda está montando instrumentos de política de Estado necessários para competir: critérios claros de criticidade e prioridades, coordenação entre mineração, indústria, ciência e tecnologia, infraestrutura e comércio exterior, além de mecanismos de financiamento e mitigação de riscos que viabilizem refino, separação e transformação, onde está o valor. A execução, contudo, será julgada por restrições domésticas muito concretas. Com juros básicos elevados, o custo de capital encarece projetos longos e intensivos em CAPEX, especialmente nas etapas industriais, justamente as que o Brasil precisa desenvolver para capturar valor. E com produtividade praticamente estagnada, fica mais difícil sustentar eficiência, qualidade e confiabilidade operacional em cadeias exigentes. O memorando com a Índia pode abrir portas, mas só vira investimento e exportação de maior valor agregado se vier acompanhado de um pacote consistente de competitividade sistêmica e governança estável, capaz de reduzir risco, formar capital humano e coordenar licenciamento, infraestrutura e incentivos. Caso contrário, o resultado provável é repetir um padrão conhecido: relevância diplomática e algum ganho de comércio, mas pouca transformação estrutural da pauta exportadora.