Será que esperamos tempo demais para cuidar da saúde?

Diretoria de Esporte e Saúde
Apoio técnico: Dr. Fábio Pimenta

Durante décadas aprendemos que saúde era sinônimo de não encontrar doenças nos exames. Talvez essa tenha sido uma das maiores simplificações da medicina moderna. Se a glicemia estivesse normal, o colesterol aceitável e a pressão arterial controlada, saíamos do consultório tranquilos, ouvindo uma frase que todos gostam de escutar:

“Está tudo bem. Volte no próximo ano.”

Mas será que realmente estava tudo bem?

As doenças começam muito antes do diagnóstico

As doenças que mais preocupam atualmente raramente aparecem de forma repentina. Elas se desenvolvem silenciosamente durante anos, muitas vezes décadas.

Sabemos, por exemplo, que o diabetes tipo 2 pode iniciar seu desenvolvimento entre 15 e 20 anos antes do diagnóstico. A aterosclerose evolui lentamente ao longo da vida. As alterações cerebrais relacionadas à doença de Alzheimer podem estar presentes vinte ou trinta anos antes dos primeiros sintomas.

Se a doença leva tanto tempo para se instalar, faz sentido esperar que ela apareça para só então agir?

O limite dos exames tradicionais

A maior parte das decisões médicas ainda acontece depois que a doença é identificada. Primeiro fazemos o diagnóstico; depois iniciamos o tratamento. Trata-se de uma medicina extremamente eficiente para tratar doenças, mas pouco preparada para cuidar da saúde. Saúde não é só ausência de doença.

Uma glicemia normal pode esconder perda progressiva da sensibilidade à insulina. O peso pode permanecer praticamente inalterado enquanto a gordura visceral aumenta e a massa muscular diminui. A pressão arterial pode estar controlada, embora a capacidade cardiorrespiratória, a qualidade do sono e a recuperação física já estejam comprometidas.

Os exames tradicionais funcionam como uma fotografia. A saúde, entretanto, se comporta como um filme.

Integrar informações muda a forma de cuidar da saúde

Foi justamente essa mudança de perspectiva que Jeffrey Bland destacou em artigo publicado na revista Integrative Medicine. Segundo ele, a maior transformação da saúde nas próximas décadas provavelmente não será um novo medicamento nem uma nova tecnologia, mas a capacidade de compreender para onde a saúde de cada indivíduo está caminhando antes que a doença se manifeste.

Hoje isso se tornou possível porque conseguimos integrar diferentes fontes de informação. Exames laboratoriais, métodos de imagem, composição corporal, testes funcionais, dispositivos vestíveis e registros clínicos deixam de ser analisados isoladamente e passam a contar uma única história, a sua.

Nesse processo, a inteligência artificial não substitui o profissional de saúde. Ela amplia sua capacidade de reconhecer padrões que dificilmente seriam percebidos apenas pela observação humana.

O melhor exemplo talvez esteja dentro de um estádio

Enquanto este artigo foi escrito, a Copa do Mundo de 2026 mostrou como essa lógica já faz parte do esporte de alto rendimento.

Durante uma partida, jogadores têm velocidade, aceleração, distância percorrida e carga física monitoradas continuamente. Os árbitros percorrem mais de doze quilômetros em campo e sua preparação é acompanhada por GPS, frequência cardíaca e testes metabólicos. Até a bola possui sensores capazes de registrar centenas de informações por segundo.

Nenhuma comissão técnica espera que um atleta sofra uma lesão grave para perceber que ele está acumulando fadiga ou perdendo capacidade de recuperação. As decisões são tomadas antes que o problema aconteça.

O esporte compreendeu que acompanhar tendências produz resultados melhores do que reagir aos acontecimentos.

E por que fazemos diferente com nossa saúde?

Na vida cotidiana, ainda esperamos o infarto para investigar o risco cardiovascular, o diabetes para avaliar o metabolismo ou a perda da autonomia para dar importância à força muscular e ao condicionamento físico.

Talvez essa seja a principal mudança que começa a acontecer.

Em vez de procurar apenas doenças já instaladas, passamos a acompanhar indicadores capazes de revelar perda de saúde muito antes do diagnóstico de alguma doença surgir.

Entre eles estão:

força muscular, através da dinamometria;

consumo máximo de oxigênio (VO₂), através do teste cardiopulmonar do Exercício;

composição corporal, através do DEXA ou mais facilmente pela bioimpedância tetrapolar;

qualidade do sono, através da polissonografia e, mais facilmente, por dispositivos vestíveis com smartwatches, anéis, pulseiras;

variabilidade da frequência cardíaca, através de exames cardiológicos e dispositivos vestíveis;

biomarcadores metabólicos, através de exames bioquímicos e metabolômicos.

Nenhum desses indicadores substitui os exames tradicionais. Eles os complementam, permitindo uma compreensão mais ampla do funcionamento do organismo.

Cinco atitudes que fazem diferença

A tecnologia só produz benefícios quando orienta decisões melhores. Algumas medidas já podem ser incorporadas à rotina de qualquer pessoa:
não espere sintomas para avaliar sua saúde;
acompanhe sua capacidade física, e não apenas exames laboratoriais;
preserve massa muscular ao longo da vida;
trate sono, alimentação e exercício físico como investimentos de longo prazo;
procure profissionais que integrem diferentes informações para construir estratégias personalizadas.

O futuro da saúde

A saúde do futuro provavelmente será menos baseada na procura da doença e mais na compreensão da trajetória biológica de cada indivíduo.

Ferramentas como inteligência artificial, metabolômica, exames laboratoriais avançados, ergoespirometria, análise da composição corporal e dispositivos vestíveis tornam-se especialmente valiosas quando utilizadas em conjunto e interpretadas dentro do contexto de cada pessoa.

O verdadeiro avanço não está na quantidade de dados disponíveis, mas na capacidade de transformá-los em decisões que preservem autonomia, desempenho e qualidade de vida.

Talvez essa seja a mudança mais importante das próximas décadas. A medicina deixará de ser reconhecida apenas pela capacidade de tratar doenças e passará a ser lembrada, cada vez mais, pela capacidade de evitar que elas aconteçam.


Dr. Fábio Pimenta, cirurgião plástico e médico do exercício, com atuação em metabolismo, composição corporal, saúde funcional e estética. Seu trabalho une ciência, medicina personalizada e mudança de estilo de vida para promover resultados mais seguros, sustentáveis e alinhados ao envelhecimento saudável.


Autor

IBEF-ES

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