O Brasil que deu certo, mas que pode ir além

Artigo publicado como integrante do CQC de Inovação e Tecnologia.

O Espírito Santo costuma ser descrito como “o Brasil que deu certo”. Essa frase resume bem o otimismo de quem observa os indicadores do estado: resultado fiscal exemplar, pleno emprego e infraestrutura logística em expansão acelerada. Portos como Portocel, Petrocity e Vports, além do Porto da Imetame, confirmam que o estado construiu um ativo valioso no país. No entanto, ainda há muito a evoluir em termos de produtividade (PIB por horas trabalhadas), já que o estado ocupa a 9ª posição entre as unidades da federação no Ranking de Competitividade dos Estados do CLP.

Ao examinar as possíveis causas, o diagnóstico aponta para um subinvestimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação empresarial. O ES figura na 11ª posição nacional em inovação, em um país que investe cerca de 1% do PIB em P&D. Em contraste, os Estados Unidos investem cerca de 3,5% do PIB, enquanto a China destina aproximadamente 2,5% (MCTI / FGV IBRE). A distância em relação às economias mais dinâmicas também se faz evidente na densidade robótica: enquanto o Brasil opera com cerca de 10 a 16 robôs por 10 mil empregados, a Coreia do Sul — líder global — alcança 1.012 robôs para o mesmo contingente, segundo a International Federation of Robotics.

Parte do problema resulta de explicações estruturais. Com a taxa Selic elevada e um dos maiores spreads bancários do mundo, empresários que já enfrentam pressão de caixa dificilmente arriscam capital em inovação que não sustente o negócio imediato. Esta lógica pode ser compreensível, mas o custo é alto. O que poucos percebem é que o capital existe e está subutilizado.

O Brasil conta com mecanismos robustos de financiamento à inovação, como a FINEP e Lei do Bem. Por outro lado, os recursos estaduais da FAPES, cujo investimento per capita em inovação está entre os maiores do Brasil, também são uma oportunidade. O dinheiro está disponível; o que falta na maioria das empresas é uma estrutura interna para captá-lo.

Algumas empresas capixabas já percorreram esse caminho. Em 2025, foram mais de R$400 milhões liberados apenas pela Finep. Exemplos como Volare (Marcopolo), Soma Urbanismo, CS3, Lehua e Brasigran mostram como é possível acessar esses recursos. No ecossistema das startups, empresas como Yooga e Luma Ensino demonstram que o modelo também funciona para companhias em estágio inicial.

O salto de R$140 milhões em 2024 para mais de R$400 milhões em 2025 indica que os empresários capixabas já dominam o acesso a esses recursos, com perspectiva de ganhos expressivos em produtividade. Com crédito corporativo caro, a subvenção e o crédito subsidiado de P&D representam, hoje, uma das formas mais baratas de financiar crescimento disponíveis no mercado. Não aproveitá-los não é cautela; é uma decisão de custo que poucos fazem conscientemente. O ES reúne ativos que poucos estados têm. Transformar essa base em produtividade de ponta requer uma decisão clara: inovação não é risco, mas uma estratégia de crescimento sustentável a longo prazo.

Autor

Yuri Porto Nico

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