Inovação na saúde: oportunidades e desafios sistêmicos

Artigo publicado como integrante do CQC de Inovação e Tecnologia.

No Brasil, o setor de saúde vive um momento de otimismo, embora ainda enfrente desafios estruturais relevantes. Três grandes tendências têm ganhado destaque entre investidores e especialistas, mas todas dependem da superação de um desafio mais significativo. O setor dispõe de tecnologia, investimento e talentos. O verdadeiro desafio é integrar esses elementos de forma eficiente.

Para entender esse cenário, é importante observar o histórico recente do setor, que passou por uma onda de inovação. Em 2020, com a pandemia, houve uma injeção inicial de investimentos, com destaque para a indústria farmacêutica, impulsionada pela corrida por medicamentos e vacinas. Em seguida, a digitalização dos serviços de saúde ganhou força, favorecida pela abertura do setor a novas tecnologias.

Um levantamento da Distrito, realizado em 2024, identificou mais de 700 healthtechs em atividade no país. As principais verticais são Gestão e Prontuários Eletrônicos (25%), Acesso à Informação (16,7%), Marketplace (12,6%) e Telemedicina (11,8%). Apenas 10% estão voltadas para Farmacêutica e Diagnóstico, o que revela foco mais concentrado na digitalização dos serviços.

Pedro Melzer, sócio da Patria Investments, avalia que as startups de saúde brasileiras representam as maiores oportunidades de investimento para os próximos anos. Após o ciclo das fintechs, que abriu diálogo com reguladores, as healthtechs se destacam por atuar em um mercado amplo, ainda ineficiente, com alto custo e grande assimetria de informação.

A saúde no Brasil já conta com tecnologia de ponta, investimento crescente e um ecossistema de inovação em expansão. No entanto, enquanto os dados seguirem fragmentados e os incentivos desalinhados, todo esse potencial continuará subaproveitado. Resolver esses entraves abre espaço para escala, o que atrai capital e cria oportunidades reais de expansão internacional.

As apostas dos investidores incluem a sinergia entre os negócios de saúde e outros setores, como financeiro e de seguros, abrindo espaço para novos modelos. Cresce também o uso de inteligência artificial em toda a cadeia, da automação de processos para atendimento personalizado à descoberta de medicamentos. Há ainda grande expectativa em torno do potencial da computação quântica na indústria farmacêutica e nos tratamentos para longevidade, embora essa realidade ainda esteja distante no curto prazo.

Apesar do entusiasmo, todas essas tendências esbarram em um obstáculo comum: o desalinhamento de interesses entre os atores da cadeia, que compromete a interoperabilidade dos dados. Para que o avanço tecnológico em saúde aconteça, será essencial o envolvimento dos reguladores e do setor público, com a participação do setor produtivo.

Inovar em saúde exige mais do que tecnologias novas. É preciso alinhar interesses, integrar sistemas e redesenhar a jornada do paciente com foco em eficiência, prevenção e personalização. Só assim a transformação tecnológica deixará de ser promessa e se tornará impacto real.

Autor

Yuri Porto Nico

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