O debate sobre o papel das empresas públicas no Brasil revela uma contradição persistente. Enquanto no setor privado o prejuízo leva a cortes ou falências, no setor estatal o déficit é absorvido como algo natural, como se o erário fosse um poço sem fundo. Essa diferença de tratamento revela uma falha estrutural de incentivos. Gestores públicos, sem propriedade real sobre os recursos, tendem a gastá-los rapidamente, buscando benefícios imediatos, pois a moderação oferece poucas vantagens, resultando em consumo contínuo de capital público. O problema central das estatais pode ser traduzido como a ausência de propriedade real, responsabilidade difusa e horizonte de gestão limitado.
Segundo o Banco Central, até novembro de 2024, o déficit das estatais federais chegou a R$ 6 bilhões. Entre os casos emblemáticos está o dos Correios, que registraram perdas de R$ 3,2 bilhões no mesmo ano. O cenário combina custos crescentes, perda de mercado e má gestão. Porém, a raiz do problema é mais profunda. Na maioria dos casos, em se tratando de empresas estatais, a lógica política substitui a lógica econômica. Decisões são tomadas para agradar grupos de interesse e gerar ganhos de curto prazo, não para garantir sustentabilidade. O resultado previsivelmente são serviços ineficientes, déficits recorrentes e dependência de socorro estatal.
Empresas privadas que enfrentam prejuízos prolongados não têm o mesmo privilégio. Casos como Varig, Mesbla e Lojas Americanas mostram que o mercado pune ineficiências. Quando o capital é privado, o risco é real: acionistas perdem, gestores são demitidos e empresas desaparecem. No setor público, o prejuízo é socializado e pago pelo contribuinte, enquanto os responsáveis raramente sofrem sanções proporcionais. Essa assimetria mina a produtividade e perpetua a impunidade administrativa.
A crítica não é apenas ideológica, mas prática. Governos não possuem recursos próprios, apenas administram o que retiram da sociedade. Quando uma estatal opera em prejuízo, o custo recai sobre o cidadão, que paga mais impostos ou recebe menos serviços. Além disso, ao sustentar empresas ineficientes, o Estado sufoca a concorrência, desestimula a inovação e consome capital produtivo que poderia gerar riqueza em setores dinâmicos.
O consumo contínuo de capital é uma consequência da propriedade pública: governantes eleitos, preocupados com o próximo ciclo eleitoral, tendem a maximizar ganhos políticos imediatos, mesmo às custas do patrimônio coletivo.
Corrigir essa distorção exige mais que ajustes pontuais. É preciso repensar o papel das estatais e adotar mecanismos que aproximem sua gestão da disciplina de mercado. É preciso estabelecer metas, auditorias independentes e meritocracia e, em última instância, privatizações em setores onde a presença do Estado não se justifica. Só assim se rompe o ciclo de déficits crônicos e se devolve à sociedade o poder de decidir, pelo mercado, quais serviços merecem existir.
A persistência de prejuízos bilionários em empresas públicas é o reflexo de um modelo que dissocia poder e responsabilidade. Enquanto no setor privado a falência é um corretivo natural, no Estado o fracasso se eterniza. O caso dos Correios é apenas o sintoma mais visível de uma doença mais profunda: a crença de que o governo pode gerir melhor do que o mercado. A experiência, os números e a teoria demonstram o contrário e a conta, inevitavelmente, é paga por todos nós.