A ilusão do controle: por que banir celulares não resolve tudo

Uma reportagem recente do Valor Econômico mostrou que empresas vêm adotando restrições ao uso de smartphones no ambiente de trabalho como resposta ao aumento das distrações e à perda de foco dos colaboradores[1]. A medida chama atenção porque revela uma preocupação legítima com a capacidade de concentração, que é um dos pilares da produtividade corporativa. Em um cenário de notificações constantes e estímulos digitais, preservar o foco tornou-se uma prioridade estratégica das empresas. No entanto, é preciso avaliar com cuidado se a proibição do celular é, de fato, uma providência eficaz.

Um estudo publicado no periódico científico Experimental Economics analisou os efeitos da proibição do uso de smartphones sobre o desempenho em diferentes tipos de tarefas e revelou uma distinção fundamental[2]. Em atividades simples, que exigem essencialmente esforço, como a realização de chamadas telefônicas, a restrição aumentou a dedicação dos trabalhadores, reduziu distrações e elevou o volume de tentativas realizadas. Já em atividades mais complexas, que exigem habilidades específicas – como conduzir entrevistas por telefone e persuadir o interlocutor a participar – esse aumento de dedicação não se traduziu em melhor desempenho. Assim, o estudo mostra que a eficácia da proibição varia conforme a natureza da tarefa executada.

Diante disso, pode-se compreender mais claramente quando a limitação do uso do smartphone tende a funcionar e quando tende a falhar. Em atividades padronizadas, com rotinas repetitivas e alto risco de erro operacional, a restrição pode ser útil, visto que a redução de distrações contribui para maior consistência e disciplina. Por outro lado, em atividades que dependem de criatividade, autonomia e tomada de decisão, a lógica se inverte, pois o bem-estar do trabalhador influencia diretamente a qualidade da entrega. Nesses casos, a tentativa de controle rígido não necessariamente aumentará a produtividade. Logo, para construir políticas corporativas mais eficazes, o desafio das empresas está em determinar como o acesso ao smartphone durante a jornada de trabalho impacta cada atividade.

Portanto, o debate sobre o uso de smartphones nas empresas precisa ser reformulado, pois, como visto, não há uma relação de causalidade necessária entre o uso do aparelho e a queda de produtividade. Para as empresas, o caminho mais eficaz exige avaliar o perfil das atividades desenvolvidas pelos empregados e como o acesso ao smartphone influencia o resultado do trabalho. Ao final, a proteção do foco não depende apenas de restringir ferramentas, mas de compreender como elas interferem, positiva ou negativamente, na dinâmica do trabalho.


[1] O que tem levado empresas a proibir o celular no escritório? | Carreira | Valor Econômico. Acesso em: 23.05.2026.

[2] https://www.cambridge.org/core/journals/experimental-economics/article/smartphone-bans-and-workplace-performance/198DD5BB947F713A1A55E245F991E2C9?utm_source=chatgpt.com#article. Acesso em: 23.05.2026.

Autor

Hugo Schneider Côgo

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