Do ciclismo aos negócios: a lógica dos ganhos marginais para um crescimento sustentável

A maioria das organizações busca o salto, a grande virada, a inovação disruptiva ou a decisão que muda tudo de uma vez. É uma narrativa sedutora e, na maior parte do tempo, ilusória. O que separa empresas que crescem de forma consistente das que oscilam entre saltos e estagnações raramente é um único momento de ruptura. É, quase sempre, a acumulação disciplinada de pequenas melhorias que muitas vezes não são consideradas suficientemente importantes para entrar no radar.

Essa lógica de pequenas melhorias é muito comum no esporte e muito replicável nos negócios. Em 2003, Dave Brailsford assumiu como diretor de performance do ciclismo britânico, um time que em mais de um século de história havia conquistado apenas uma medalha de ouro olímpica e nunca havia vencido o Tour de France. Sua estratégia não foi contratar os melhores ciclistas do mundo nem desenvolver uma tecnologia revolucionária. Foi o que ele chamou de “agregação de ganhos marginais”: melhorar em 1% cada um dos componentes que influenciavam o desempenho dos ciclistas. Ele aplicou isso tanto nos fatores óbvios, como nutrição e treinamento, quanto onde ninguém olhava, como o travesseiro em que os ciclistas dormiam. Nenhuma dessas mudanças, isoladamente, movia um resultado, mas juntas mudaram muita coisa. Brailsford havia estimado que o time precisaria de cinco anos para vencer o Tour de France, mas isso aconteceu em apenas três. Em 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, a equipe britânica conquistou 70% das medalhas de ouro disponíveis no ciclismo de pista. No mesmo ano, a inédita vitória no Tour de France procedeu outras quatro vitórias nos anos seguintes.

A aplicação dessa lógica ao mundo corporativo é direta, porém não tão óbvia quanto deveria. A maioria das organizações sabe identificar os grandes problemas, mas o que raramente fazem é mapear sistematicamente os pequenos atritos, as pequenas ineficiências, os pequenos gargalos que, individualmente, parecem insignificantes e, coletivamente, determinam a diferença entre performance média e performance excepcional.

Brailsford descreveu sua filosofia com uma precisão que vale guardar: “O princípio veio da ideia de que, se você desmontasse tudo o que consegue pensar que envolve pedalar uma bicicleta e melhorasse cada parte em 1%, teria um ganho significativo quando colocasse tudo junto.” A pergunta que cada líder pode fazer sobre sua organização é a mesma: “Se eu desmontasse cada parte do que fazemos e melhorasse cada uma delas em 1%, o que aconteceria com o todo?”. O resultado pode não ser extraordinário no curto prazo, mas tende a ser uma alavanca consistente para um crescimento mais sustentável. Grandes viradas e inovações disruptivas geram impulsos poderosos, mas são difíceis de planejar e garantir crescimento consistente. Uma grande ideia pode abrir caminhos, mas em mercados cada vez mais competitivos a disciplina cotidiana de melhorar o que já existe é o que mantém a empresa no jogo. E isso começa em uma escolha individual: a de tratar cada detalhe como se importasse, porque, no acumulado, importa.

Autor

Maria Clara de Almeida

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