Síntese executiva
O crescimento das indústrias instaladas no Paraguai, especialmente por meio do Regime de Maquila, amplia a competição regional pela localização dos investimentos produtivos. O país vizinho oferece uma combinação difícil de igualar: tributação reduzida, energia hidrelétrica competitiva, custos trabalhistas menores, estabilidade macroeconômica e procedimentos regulatórios relativamente simples.
Em julho de 2026, as exportações paraguaias realizadas pelo regime de maquila atingiram US$ 860 milhões no acumulado do ano, crescimento de 28% em relação ao mesmo período de 2025. O segmento reunia aproximadamente 38,9 mil empregos vinculados, 13% a mais em um ano. Autopeças, confecções, plásticos, químicos, farmacêuticos e serviços estão entre as atividades de maior presença.
Para o Espírito Santo, esse movimento não significa uma concorrência direta e homogênea por todo tipo de empreendimento. O Paraguai apresenta maior força na atração de operações industriais padronizadas, exportadoras e intensivas em trabalho ou energia. O Espírito Santo, por sua vez, possui vantagens em logística portuária, acesso ao oceano, disponibilidade de fornecedores, instituições, serviços especializados, integração com o mercado brasileiro e capacidade de receber projetos industriais mais complexos.
A resposta capixaba não deve ser tentar reproduzir integralmente o modelo tributário paraguaio, algo limitado pela estrutura federativa brasileira. O desafio é oferecer ao investidor um menor custo total de implantação e operação, combinando infraestrutura, previsibilidade regulatória, energia e gás competitivos, licenciamento eficiente, qualificação profissional e atendimento integrado.
O Paraguai como plataforma industrial
O Regime de Maquila é uma política de atração de investimentos orientada à produção para exportação. A empresa instalada no Paraguai produz bens ou presta serviços por conta de uma empresa contratante localizada no exterior. O regime atual é disciplinado pela Lei nº 7.547/2025 e regulamentado pelo Decreto nº 5.714/2026. Seus principais benefícios são:
- Tributo Único de Maquila de 1%;
- suspensão dos tributos aduaneiros;
- isenção do Imposto de Renda Empresarial;
- isenção do Imposto sobre Dividendos e Lucros;
- isenção do Imposto de Renda de Não Residentes;
- recuperação do IVA para maquiladoras de bens e serviços;
- acesso preferencial ao Mercosul, quando cumpridas as regras de origem.
O tributo de 1% incide sobre a base determinada pelo regime, não sobre o lucro contábil. Além disso, a vantagem é válida para as operações enquadradas no programa. Receitas fora da maquila e vendas realizadas no mercado interno paraguaio ficam sujeitas aos tributos locais aplicáveis. A estratégia paraguaia troca arrecadação direta por geração de investimento, emprego, exportações e renda. Para um país com mercado consumidor relativamente pequeno, a maquila também é um mecanismo de diversificação produtiva e inserção nas cadeias regionais.
Por que empresas brasileiras consideram o Paraguai?
A decisão não decorre de uma única vantagem, mas da combinação de diferentes custos.
Tributação
No regime geral paraguaio, o Imposto de Renda Empresarial é de 10%, enquanto o IVA possui alíquotas de 5% e 10%. A maquila oferece um tratamento ainda mais favorável às operações de exportação. No Brasil, uma indústria administra IRPJ, CSLL, IPI, ICMS, PIS/Cofins e diferentes obrigações acessórias, além da transição para IBS e CBS. A comparação não deve considerar somente as alíquotas, mas também o custo de apuração, a recuperação de créditos, o contencioso e a necessidade de interpretar normas federais, estaduais e municipais.
Energia
O Paraguai dispõe de grande geração hidrelétrica associada a Itaipu e Yacyretá. Nas tarifas publicadas pela ANDE, determinadas referências industriais ficam próximas de 344 guaranis por kWh, embora o custo final varie conforme tensão, demanda, localização e horário de consumo. Essa tarifa equivale, indicativamente, a uma ordem de grandeza próxima de US$ 54 por MWh, utilizando uma taxa de câmbio de 6.400 guaranis por dólar.
No Brasil, apesar da ampla matriz renovável, a tarifa industrial incorpora transmissão, distribuição, encargos, tributos e subsídios. Grandes empresas podem reduzir custos no mercado livre, mas enfrentam maior complexidade contratual e regulatória.
Custo de capital
Em agosto de 2026, a Selic estava em 14% ao ano. Em maio, a taxa média do crédito livre para empresas brasileiras havia alcançado 25,2% ao ano. No Paraguai, a taxa de política monetária estava em 5,5%, e a taxa ativa média ponderada das operações em moeda estrangeira havia ficado em 7,84% em abril.
As taxas não são diretamente comparáveis, pois envolvem moedas, prazos e perfis de risco diferentes. Ainda assim, mostram um ambiente monetário mais oneroso no Brasil. O Paraguai possui crédito potencialmente mais barato, mas seu mercado financeiro é menor e menos profundo. O Brasil apresenta maior variedade de instrumentos, bancos, mercado de capitais e financiamento de longo prazo, porém a um custo elevado.
Mão de obra
O Paraguai possui população relativamente jovem, salários menores e legislação trabalhista percebida como mais simples. Isso favorece operações de confecção, montagem, autopeças e processamento industrial padronizado. O custo salarial, contudo, não pode ser analisado isoladamente. A variável relevante para a empresa é o custo do trabalho por unidade produzida. Menores salários podem ser parcialmente compensados por gastos com treinamento, supervisão, manutenção, rotatividade e contratação de profissionais especializados.
Uma concorrência assimétrica com o Espírito Santo
Paraguai e Espírito Santo não oferecem o mesmo pacote de atributos. A competição é assimétrica.
| Dimensão | Paraguai | Espírito Santo |
| Tributação da produção exportadora | Forte vantagem com a maquila | Incentivos estaduais, mas submetidos ao sistema tributário brasileiro |
| Energia elétrica | Abundante e competitiva | Matriz diversificada e mercado livre, mas custo final mais elevado |
| Mão de obra operacional | Custo menor | Custo maior, com mercado de trabalho mais estruturado |
| Capital humano especializado | Oferta mais limitada | Maior disponibilidade de técnicos, engenheiros e gestores |
| Logística internacional | Sem litoral e dependente de países vizinhos | Acesso direto ao oceano e infraestrutura portuária |
| Mercado consumidor | Pequeno, mas próximo do Brasil | Inserido diretamente no mercado brasileiro |
| Cadeia de fornecedores | Menor densidade industrial | Base industrial e de serviços mais diversificada |
| Regulação | Mais simples e centralizada | Mais complexa, mas com instituições mais maduras |
| Crédito | Juros menores, mercado menos profundo | Mercado financeiro amplo, porém caro |
| Licenciamento | Percepção de maior agilidade | Estrutura técnica mais robusta, mas sujeita a maior complexidade |
O Paraguai tende a ser mais competitivo “dentro do portão da fábrica”: tributos, energia, trabalho e burocracia. O Espírito Santo pode ser mais competitivo “ao redor da fábrica”: portos, fornecedores, mercado, infraestrutura, serviços técnicos, capital humano e segurança institucional. A empresa escolherá o território que apresentar o menor custo total ajustado ao risco, e não necessariamente o local com o menor imposto.
Quais investimentos o Espírito Santo corre maior risco de perder?
A exposição é maior em projetos com as seguintes características:
- produção padronizada;
- elevada participação da mão de obra no custo;
- consumo intensivo de energia;
- uso relevante de componentes importados;
- possibilidade de fragmentar a cadeia produtiva;
- produção voltada ao mercado do Mercosul;
- baixa dependência de fornecedores especializados;
- produtos de maior valor por peso, que suportam o custo de transporte.
Entre os setores potencialmente mais sensíveis estão confecções, plásticos, componentes, autopeças, embalagens, montagem de equipamentos e alguns segmentos químicos e farmacêuticos. A distância entre o Espírito Santo e o Paraguai reduz parcialmente essa ameaça. Para uma empresa capixaba, transferir a produção significa aumentar o percurso até os portos e, em muitos casos, afastar-se de fornecedores, equipes técnicas e centros de distribuição.
Por outro lado, o risco cresce quando a economia tributária, energética e trabalhista supera esses custos adicionais. Também pode ocorrer uma transferência parcial: a empresa mantém administração, marca e comercialização no Brasil, mas desloca etapas industriais para o Paraguai.
As vantagens competitivas do Espírito Santo
Logística portuária e acesso ao oceano
A posição litorânea é uma vantagem estrutural que o Paraguai não consegue reproduzir. O Espírito Santo possui portos, terminais especializados, aeroportos, ferrovias e corredores rodoviários que permitem integrar produção, importação de insumos e exportação. A expansão de Portocel, Vports, Imetame, Porto Central e dos projetos associados ao ParkLog pode ampliar a capacidade de o Estado funcionar como plataforma industrial e logística.
O desenvolvimento do ParkLog Sul Capixaba também procura estruturar um ecossistema integrado de logística, energia e indústria no sul estadual.
Base industrial existente
O Estado dispõe de competências acumuladas em:
- siderurgia e metalurgia;
- mineração e pelotização;
- petróleo e gás;
- celulose;
- rochas ornamentais;
- alimentos e bebidas;
- comércio exterior;
- logística e serviços portuários.
Essa base reduz custos de aprendizado, manutenção e contratação de fornecedores. Também oferece oportunidades para novos projetos vinculados à descarbonização, produção de combustíveis sustentáveis, beneficiamento mineral, equipamentos industriais e economia do mar.
Instituições e planejamento
O Espírito Santo acumulou reputação de responsabilidade fiscal, continuidade administrativa e planejamento de longo prazo. Em investimentos intensivos em capital e com maturação longa, a previsibilidade institucional pode compensar parte de uma diferença de custos operacionais. O investidor considera não apenas o custo do primeiro ano, mas a possibilidade de operar durante décadas sem mudanças abruptas, deterioração dos serviços públicos ou ruptura do ambiente de negócios.
Programas estaduais
O Invest-ES procura estimular expansão, modernização e diversificação produtiva, além da implantação de armazéns e infraestrutura logística. O Compete-ES atua sobre setores produtivos, vinculando os benefícios à geração de empregos, capacitação e investimentos. Aproximadamente metade do território capixaba também está na área de atuação da Sudene.
Esses instrumentos são relevantes, mas precisam ser avaliados não apenas pelo benefício fiscal concedido. É necessário medir:
- investimento adicional produzido;
- empregos gerados;
- massa salarial;
- produtividade;
- compras realizadas no Estado;
- exportações;
- permanência do empreendimento;
- custo fiscal por resultado alcançado.
A agenda capixaba para a competição por investimentos
Transformar incentivos em política de competitividade
O Espírito Santo não deve entrar em uma disputa baseada somente em renúncia fiscal. Os incentivos precisam integrar um pacote composto por terreno, infraestrutura, qualificação, energia, gás, logística e segurança regulatória. A proposta ao investidor deve responder objetivamente:
- quanto custará instalar a planta;
- em quanto tempo poderá começar a operar;
- qual será o custo logístico;
- onde encontrará trabalhadores;
- como acessará energia e gás;
- quais licenças serão necessárias;
- qual será o tratamento tributário;
- quem coordenará a implantação.
Criar um verdadeiro balcão único do investimento
O atendimento ao investidor deve integrar:
- governo estadual;
- municípios;
- órgãos ambientais;
- concessionárias;
- Corpo de Bombeiros;
- Junta Comercial;
- instituições de formação profissional;
- administradores portuários;
- agências de financiamento.
A empresa não deveria precisar coordenar sozinha órgãos que pertencem ao mesmo ambiente público. Um gestor de projeto poderia acompanhar cada investimento estratégico desde a consulta inicial até o começo da operação.
Aumentar a previsibilidade do licenciamento
A agilidade não deve significar flexibilização dos padrões ambientais. Significa:
- termos de referência claros;
- classificação prévia dos empreendimentos;
- calendário de análise;
- exigências consolidadas;
- digitalização;
- coordenação entre instituições;
- equipe compatível com a demanda;
- aproveitamento dos estudos territoriais existentes.
O ZEEC-ES, os planos diretores, os zoneamentos municipais e o mapeamento de áreas industriais podem indicar previamente onde determinados empreendimentos possuem maior compatibilidade socioambiental. Isso reduz incerteza antes mesmo do protocolo.
Competitividade energética
O Estado precisa tratar energia e gás como componentes da política industrial.
A agenda inclui:
- ampliação da infraestrutura de gás;
- melhoria da rede elétrica em polos industriais;
- estímulo ao mercado livre;
- geração renovável;
- armazenamento;
- eficiência energética;
- contratos de longo prazo;
- soluções compartilhadas em distritos industriais.
O Espírito Santo dificilmente reproduzirá o custo hidrelétrico paraguaio, mas pode reduzir o preço final por meio de escala, planejamento e infraestrutura adequada.
Capital humano sob demanda
A vantagem capixaba não deve estar em oferecer o trabalhador mais barato, mas em entregar maior produtividade. Cursos técnicos e programas de qualificação precisam ser organizados a partir da demanda concreta dos projetos industriais, incluindo formação em:
- automação;
- manutenção industrial;
- eletrotécnica;
- instrumentação;
- logística;
- comércio exterior;
- química;
- programação;
- controle de qualidade;
- segurança operacional.
A participação das empresas na definição curricular reduz a distância entre formação e contratação.
Consolidar polos industriais e logísticos
Projetos como ParkLog, ZPE de Aracruz e ParkLog Sul Capixaba podem oferecer uma resposta mais estrutural à concorrência regional. Um polo competitivo deve reunir:
- acesso rodoviário e ferroviário;
- proximidade portuária;
- energia;
- gás;
- telecomunicações;
- áreas licenciáveis;
- armazenagem;
- serviços aduaneiros;
- fornecedores;
- qualificação profissional.
O diferencial não é apenas disponibilizar terreno, mas reduzir o tempo e o custo de colocar uma fábrica em funcionamento.
Reforma tributária e mudança na competição estadual
A transição para IBS e CBS tende a reduzir progressivamente o papel dos incentivos relacionados ao ICMS. Isso exigirá que os estados substituam a guerra fiscal por uma competição baseada em vantagens reais. Ganharão importância:
- infraestrutura;
- localização;
- qualidade dos serviços públicos;
- capital humano;
- disponibilidade energética;
- segurança;
- agilidade administrativa;
- proximidade dos fornecedores;
- planejamento territorial.
Essa mudança pode favorecer o Espírito Santo, desde que o Estado consiga transformar seus ativos logísticos e institucionais em redução mensurável do custo empresarial. O Paraguai continuará competindo com tributação e energia. O Espírito Santo precisará competir oferecendo produtividade sistêmica.
Conclusão
O avanço da maquila paraguaia deve ser entendido como um alerta sobre a intensificação da competição regional por investimentos industriais. Quando uma empresa aceita operar em dois países, administrar fronteiras e ampliar sua complexidade logística para reduzir custos, é sinal de que as diferenças entre os ambientes de negócios se tornaram economicamente relevantes.
O Paraguai possui vantagens evidentes em tributação, energia, custos trabalhistas e simplicidade. O Espírito Santo, entretanto, reúne atributos que o país vizinho não oferece na mesma escala: acesso direto ao oceano, infraestrutura portuária, integração ao mercado brasileiro, base industrial, fornecedores especializados, capital humano e maior maturidade institucional.
A estratégia capixaba não deve tentar disputar apenas o custo da fábrica. Deve reduzir o custo total do investimento. Isso exige transformar portos, energia, gás, incentivos, licenciamento, qualificação e atendimento ao investidor em uma oferta integrada.
A competição dos próximos anos será vencida pelos territórios capazes de entregar três elementos simultaneamente: custo competitivo, segurança para investir e velocidade para operar. O Espírito Santo já possui parte importante desses ativos. O desafio agora é coordená-los em uma política industrial capaz de converter vantagens potenciais em novos projetos, empregos qualificados e diversificação produtiva.