Nota Executiva – Vitória no topo: o que significa ser a cidade mais competitiva do Brasil

Vitória alcançou, pela primeira vez, a liderança do Ranking de Competitividade dos Municípios 2026, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP). A capital capixaba superou Florianópolis, que ocupava a primeira posição havia três anos, e ficou à frente de importantes centros econômicos brasileiros como Porto Alegre, Curitiba e São Paulo.

Mais do que uma posição em um ranking, o resultado fornece uma sinalização importante sobre a capacidade de Vitória de oferecer condições institucionais, sociais e econômicas favoráveis ao desenvolvimento. Para o setor empresarial, competitividade territorial importa porque influencia custos, disponibilidade de mão de obra, qualidade dos serviços públicos, ambiente regulatório, capacidade de atração de talentos e, em última instância, a decisão sobre onde investir.

O primeiro lugar não representa um movimento isolado. Vitória vem apresentando uma trajetória contínua de crescimento no levantamento: ocupou a 3ª posição em 2024, avançou para a 2ª em 2025 e chegou à liderança nacional em 2026. A evolução é particularmente relevante porque o Ranking de Competitividade procura avaliar de maneira abrangente as condições oferecidas pelos municípios. Em 2026 foram analisadas 423 cidades brasileiras com mais de 80 mil habitantes, por meio de 65 indicadores distribuídos em 13 pilares, organizados nas dimensões Instituições, Sociedade e Economia. Vitória registrou notas de 81,01 em Instituições, 65,72 em Sociedade e 54,13 em Economia.

Instituições como vantagem competitiva

Um dos elementos mais importantes do resultado é o desempenho institucional. Vitória conquistou a 1ª posição nacional no pilar Funcionamento da Máquina Pública. A cidade também aparece entre os destaques nacionais em Capital Humano e Acesso à Saúde. Para a atividade econômica, instituições eficientes não são uma questão meramente administrativa. Elas reduzem custos de transação, aumentam a previsibilidade das decisões empresariais e melhoram a capacidade do poder público de transformar recursos arrecadados em serviços e infraestrutura.

Uma cidade com processos públicos eficientes, equilíbrio fiscal, transparência e ambiente regulatório adequado tende a oferecer maior segurança para decisões de investimento de longo prazo. Nesse sentido, o desempenho de Vitória dialoga com uma característica mais ampla observada no Espírito Santo nos últimos anos: a construção de um ambiente institucional marcado por responsabilidade fiscal, planejamento e continuidade de políticas públicas. Essa combinação constitui um ativo econômico que deve ser preservado.

Capital humano, produtividade e renda

Outro componente relevante é a posição de Vitória entre as melhores cidades brasileiras em Capital Humano. Esse pilar considera elementos relacionados à formação da população para o mercado de trabalho, incluindo matrículas no ensino técnico, profissionalizante e superior e a qualificação dos trabalhadores empregados formalmente.

Essa dimensão merece especial atenção do setor produtivo. No longo prazo, aumentos sustentáveis de renda dependem fundamentalmente de ganhos de produtividade. E produtividade depende, entre outros fatores, de trabalhadores qualificados, capacidade de incorporação tecnológica, infraestrutura e instituições eficientes.

Por isso, capital humano não deve ser entendido apenas como uma política social. Ele é parte da infraestrutura econômica necessária para uma cidade competir por empresas, investimentos e empregos de maior produtividade.

Competitividade também é uma política de atração de investimentos

O primeiro lugar cria ainda um importante ativo reputacional. Empresas que analisam diferentes localidades para instalar escritórios, centros administrativos, empresas de tecnologia, serviços especializados ou novos investimentos observam não apenas incentivos tributários. Avaliam disponibilidade de mão de obra, infraestrutura urbana, qualidade dos serviços, ambiente institucional e qualidade de vida.

O ranking ajuda a sintetizar essas informações e coloca Vitória em uma posição privilegiada na vitrine nacional. Esse ativo torna-se ainda mais relevante quando combinado às vantagens estruturais do Espírito Santo: posição geográfica estratégica, infraestrutura portuária e logística, forte presença industrial, proximidade dos principais mercados consumidores brasileiros e uma agenda crescente de novos investimentos privados. A liderança de Vitória pode, portanto, funcionar como porta de entrada para uma estratégia mais ampla de promoção do Espírito Santo como destino de investimentos.

O primeiro lugar não elimina os desafios

Rankings de competitividade devem ser utilizados também como instrumentos de diagnóstico. Chegar à primeira posição não significa que todos os problemas da cidade estejam resolvidos. O próprio histórico recente do levantamento mostra oportunidades importantes de avanço em áreas como segurança, telecomunicações e meio ambiente, que apareciam entre os principais gargalos de Vitória na edição anterior.

A lógica da competitividade é dinâmica. Cidades concorrem continuamente por empresas, profissionais qualificados, investimentos e inovação. Permanecer no topo exige avançar justamente nos indicadores em que ainda existem fragilidades. O desafio deixa, portanto, de ser apenas chegar ao primeiro lugar e passa a ser transformar a liderança em ganhos permanentes de produtividade e qualidade de vida.

De Vitória para o Espírito Santo

Existe ainda uma oportunidade adicional. O resultado da capital não deve ser analisado isoladamente. Vitória integra uma região metropolitana economicamente conectada a Vila Velha, Serra, Cariacica, Viana, Fundão e Guarapari. Empresas e trabalhadores atravessam diariamente as fronteiras municipais, utilizando infraestrutura, serviços e mercados de trabalho compartilhados. Uma estratégia moderna de competitividade precisa, portanto, ultrapassar os limites administrativos.

O próximo passo deveria ser utilizar as boas práticas identificadas em Vitória e em outros municípios capixabas para construir uma agenda metropolitana e estadual de competitividade, envolvendo simplificação regulatória, infraestrutura, mobilidade, qualificação profissional, inovação, transformação digital e melhoria contínua da gestão pública.

Mensagem para o mercado

A liderança de Vitória no Ranking de Competitividade dos Municípios é uma excelente notícia para a economia capixaba, mas seu maior valor está no sinal que transmite. O resultado mostra que boa gestão pública, instituições eficientes e investimento em capital humano também são políticas de desenvolvimento econômico. Para o setor empresarial, um ambiente institucional de qualidade reduz incertezas e cria condições mais favoráveis ao investimento. Para o poder público, o ranking oferece uma agenda objetiva de pontos fortes a preservar e gargalos a enfrentar.

Vitória chegou ao primeiro lugar. O desafio agora é transformar essa posição em um ativo econômico: atrair investimentos, estimular empresas mais produtivas, gerar empregos de maior qualidade e disseminar os ganhos de competitividade para toda a economia capixaba. Mais importante do que liderar um ranking é utilizar as condições que levaram a essa liderança para produzir crescimento econômico sustentável e aumento da renda da população.

Autor

Felipe Storch Damasceno

Economista-Chefe do IBEF-ES

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