O Espírito Santo não acompanha a reorganização geopolítica de longe. Por ser uma economia aberta, industrial e portuária, mudanças em tarifas, fluxos de capital, energia e tecnologia chegam rapidamente à produção, ao emprego e à arrecadação estadual. No segundo trimestre de 2026, a corrente de comércio capixaba alcançou US$ 8,23 bilhões, e o grau de abertura chegou a 57,66% do PIB, mais que o dobro do indicador brasileiro. China e Estados Unidos responderam, juntos, por 54,95% desse fluxo. A questão, portanto, não é se a geopolítica afeta o Estado, mas como reduzir os riscos dessa exposição e, ao mesmo tempo, aproveitar as oportunidades de investimento, diversificação produtiva e acesso a novos mercados.
Leitura geral
Na palestra, Marcos Troyjo descreve uma economia mundial menos orientada por uma lógica única de abertura e mais condicionada por segurança econômica, capacidade tecnológica e poder de investimento. Os cinco movimentos analisados fazem parte do mesmo processo: a mudança do papel da China, a volatilidade dos Estados Unidos, o avanço das economias emergentes, a diversificação das fontes de capital e a aproximação entre energia e inteligência artificial.
Para o Espírito Santo, essa leitura conduz a uma conclusão prática. O Estado possui portos, base industrial, recursos energéticos, capacidade fiscal e localização favorável, mas ainda captura pouco valor em algumas das cadeias às quais está conectado. A prioridade deve ser usar a abertura externa para adensar a produção local, ampliar a presença de empresas capixabas nos investimentos atraídos e diminuir a concentração de produtos e destinos.
Os cinco movimentos e a leitura para o Espírito Santo
| Movimento | Exposição capixaba | Oportunidade | Decisão estratégica |
| China como mercado, fornecedora e investidora | Importações industriais elevadas e exportações concentradas em bens básicos | Investimento produtivo chinês e acesso a cadeias asiáticas | Converter o investimento externo em fornecedores locais, tecnologia e capacidade exportadora |
| Volatilidade dos Estados Unidos | Forte presença de rochas, aço, celulose e petróleo no mercado norte-americano | Preservação de um mercado de alta renda e avanço em produtos de maior valor | Diversificar destinos sem perder espaço comercial nos Estados Unidos |
| Crescimento do E7 | Pauta exportadora ainda pouco adaptada aos mercados emergentes | Demanda por alimentos, infraestrutura, energia, mobilidade e turismo | Definir estratégias por país, setor e canal logístico |
| Nova geografia do capital | Projetos relevantes nem sempre chegam estruturados ao investidor | Fundos soberanos, bancos multilaterais e capital privado de longo prazo | Manter uma carteira financiável, com riscos e retornos transparentes |
| Convergência entre energia e IA | Possíveis gargalos em rede elétrica, conectividade, água e qualificação | IA industrial, logística inteligente, energia de baixo carbono e serviços digitais | Priorizar a infraestrutura necessária e as aplicações ligadas às vocações capixabas |
Elaboração própria a partir da palestra.
1. China como mercado e fonte de investimento
Durante boa parte das últimas quatro décadas, a China foi vista sobretudo como a grande plataforma industrial do mundo. A abertura iniciada no fim dos anos 1970 ampliou a oferta global de manufaturas e deu origem ao que ficou conhecido como choque da China. A fase atual tem outra lógica. Pequim procura diminuir vulnerabilidades em alimentos, minerais críticos, energia e tecnologia, enquanto suas empresas avançam com investimentos produtivos no exterior. A China já não é apenas cliente ou fornecedora: tornou-se também investidora e concorrente.
No Espírito Santo, essa transformação pode ser observada nos próprios dados comerciais. A China respondeu por 38,66% da corrente de comércio estadual no segundo trimestre de 2026. O Estado vendeu US$ 68,92 milhões ao mercado chinês e comprou US$ 3,11 bilhões, o que resultou em déficit bilateral de US$ 3,04 bilhões. De um lado, predominam minério de ferro, rochas em blocos, celulose e quartzo. Do outro, veículos, partes e acessórios representaram 83,75% das compras provenientes da China. A diferença entre as duas pautas mostra que o desafio não se resume ao saldo comercial; envolve também a complexidade do que o Estado vende e compra.
A implantação da GWM em Aracruz abre a possibilidade de converter parte das importações em produção local. A presença da fábrica, por si só, não garante esse resultado. Seu efeito será mais amplo se houver espaço para fornecedores capixabas, serviços de engenharia e logística, software embarcado, formação técnica e pesquisa aplicada. Sem metas verificáveis de compras competitivas no Estado, treinamento e inovação, pode haver aumento da produção sem o correspondente adensamento tecnológico.
A política estadual deve, assim, tratar o investimento chinês como ponto de partida para o desenvolvimento de uma cadeia, e não apenas como capacidade industrial instalada. Um programa de fornecedores, apoiado por mapeamento de competências e certificações, pode ampliar o conteúdo local sem recorrer a reservas de mercado. Também será importante estabelecer regras claras para dados e propriedade intelectual e criar condições para que a produção realizada em Aracruz alcance outros países da América Latina. Nas exportações, o caminho passa por maior beneficiamento local e pela abertura de novos mercados asiáticos.
2. Volatilidade dos Estados Unidos e risco comercial
Troyjo usa a expressão “trumpolência” para descrever a combinação entre o peso estrutural dos Estados Unidos e a instabilidade de suas decisões comerciais e geopolíticas. Tarifas, sanções, regras de origem e políticas de compras governamentais podem mudar preços e redirecionar fluxos de comércio em pouco tempo. A Organização Mundial do Comércio já identifica os efeitos desse ambiente mais incerto sobre a expansão do comércio em 2026.
Para a economia capixaba, trata-se de um risco imediato. Os Estados Unidos representaram 16,29% da corrente de comércio do Estado no segundo trimestre de 2026 e geraram superávit bilateral de US$ 510,66 milhões. As exportações somaram US$ 925,51 milhões e se concentraram em rochas ornamentais trabalhadas, produtos semimanufaturados de ferro e aço, celulose e petróleo bruto. Uma mudança decidida em Washington, portanto, pode atingir rapidamente a atividade econômica de Cachoeiro de Itapemirim, Serra, Aracruz e de outros territórios ligados a essas cadeias.
Isso não significa que o Estado deva se afastar do mercado norte-americano, que continua relevante pela escala, pela renda e pela demanda por produtos de maior valor. O objetivo é preservar esse espaço comercial e reduzir a dependência. Para isso, empresas e entidades setoriais precisam acompanhar tarifas e regras de origem de forma permanente, preparar planos de contingência por produto e ampliar o uso de seguros e instrumentos de proteção financeira. A promoção comercial deve buscar novos clientes sem perder de vista outra tarefa: agregar design, marca, acabamento e serviços aos produtos capixabas, diminuindo a competição baseada apenas em preço.
3. Deslocamento do crescimento do G7 para o E7
O centro de gravidade do crescimento mundial vem se deslocando em direção às economias emergentes. Na formulação apresentada por Troyjo, o E7 ganha peso relativo diante do G7. Isso não significa uma substituição rápida das economias avançadas. Significa que uma parcela maior da nova demanda surgirá em países nos quais o aumento da renda modifica de maneira mais intensa o consumo das famílias e as necessidades de infraestrutura.
Esse movimento favorece áreas nas quais o Espírito Santo já possui experiência, como café, celulose, alimentos, siderurgia, rochas, petróleo e gás. Também aumenta a importância da rede portuária e da proximidade com os grandes mercados consumidores brasileiros. Países Baixos, Egito, Coreia do Sul, Singapura e Turquia estiveram entre os parceiros que geraram superávit para o Estado no segundo trimestre de 2026. São sinais de que a diversificação é possível, embora ainda não tenha escala ou regularidade suficientes.
A logística terá papel decisivo nessa abertura. O ParkLog Sul Capixaba procura articular portos, ferrovia, rodovias, energia e áreas industriais. A EF-118, a expansão do Porto Central e o melhor aproveitamento do Porto de Ubu podem ligar a produção capixaba e a hinterlândia do Sudeste a mercados em expansão. Há, porém, uma diferença importante entre movimentar carga e gerar desenvolvimento. O retorno para o Estado será maior se o avanço logístico também atrair processamento, manutenção, engenharia, seguros, tecnologia portuária e centros de decisão empresarial.
A diversificação não será alcançada com uma política promocional genérica. Índia, Indonésia, México, países do Golfo, Turquia e mercados africanos apresentam demandas, barreiras e canais de entrada distintos. Para cada mercado prioritário, será necessário relacionar a oferta capixaba às exigências sanitárias e técnicas, às rotas disponíveis e aos possíveis parceiros comerciais. Esse recorte permite concentrar recursos onde há maior chance de converter missões e contatos institucionais em contratos.
4. Nova geografia do capital e financiamento de longo prazo
Outra mudança, menos visível do que os fluxos de comércio, ocorre no financiamento. Bancos multilaterais, o Novo Banco de Desenvolvimento, fundos soberanos, fundos de pensão, gestoras de infraestrutura e investidores ligados a cadeias produtivas passaram a dividir um mercado mais amplo. Alguns desses agentes aceitam horizontes longos, mas exigem previsibilidade regulatória, boa governança e projetos com escala suficiente.
O Espírito Santo parte de uma posição favorável, embora ainda incompleta. A carteira acompanhada pelo IJSN para o período de 2024 a 2029 reunia 1.290 projetos e R$ 137,6 bilhões em investimentos anunciados. O capital estrangeiro respondia por 6,6% desse valor, enquanto a participação pública havia crescido nos ciclos recentes. Em 1º de setembro de 2026, o Fundo Soberano do Estado registrava patrimônio de R$ 2,88 bilhões. Essa base pode apoiar garantias e coinvestimentos, além de melhorar a estruturação de projetos capazes de atrair outros financiadores.
O gargalo costuma aparecer antes do financiamento. Investidores de longo prazo procuram estudos de demanda, licenciamento encaminhado, modelo de receitas e uma divisão clara dos riscos. Por isso, uma lista de anúncios não equivale a uma carteira financiável. O Estado precisa manter uma estrutura permanente de preparação de projetos, capaz de acompanhar cada iniciativa desde o estudo inicial até o fechamento financeiro.
A fonte de recursos também precisa ser compatível com o ativo. Infraestrutura com receita previsível pode acessar debêntures, fundos e concessões; projetos climáticos comportam combinações de crédito multilateral e capital privado; inovação requer instrumentos dispostos a absorver mais risco. Nesse arranjo, o Fundo Soberano deve funcionar como catalisador, sem substituir recursos privados já disponíveis. A disciplina fiscal capixaba terá mais valor econômico se reduzir o custo do capital e o tempo necessário para tirar bons projetos do papel.
5. Convergência de energia com infraestrutura digital e inteligência artificial
A expansão da inteligência artificial aproximou definitivamente tecnologia, energia e geopolítica. Chips e centros de dados dependem de eletricidade, minerais, água, conectividade e capacidade computacional. Esses recursos passaram a integrar a agenda de segurança econômica dos países. A Agência Internacional de Energia estima que o consumo de eletricidade dos centros de dados poderá chegar a aproximadamente 945 TWh em 2030, mais que o dobro do nível de 2024.
Para o Espírito Santo, a oportunidade mais próxima está menos na produção de modelos ou semicondutores e mais na infraestrutura e nas aplicações. A base industrial, os portos, a produção de petróleo e gás e os projetos de energia renovável oferecem problemas reais nos quais a tecnologia pode elevar a produtividade. Manutenção industrial, inspeção de rochas, eficiência energética, gestão portuária e rastreabilidade do café são alguns exemplos. Os novos investimentos da ArcelorMittal e da GWM, assim como os complexos logísticos, podem funcionar como ambientes de automação e de desenvolvimento de fornecedores tecnológicos.
A atração de centros de dados, por sua vez, exige uma avaliação econômica cuidadosa. Não basta oferecer terreno e incentivo fiscal. É preciso considerar a disponibilidade de energia e água, a capacidade de transmissão, a rede de fibra óptica, a segurança cibernética e a oferta de profissionais qualificados. Se esses custos não forem medidos, o investimento pode pressionar a infraestrutura existente e deixar pouco valor no Estado. Planejamento energético e planejamento digital, portanto, precisam ser feitos em conjunto.
Não faz sentido tentar disputar todas as camadas dessa tecnologia. Uma política mais consistente deve formar engenheiros, técnicos e gestores capazes de adaptar soluções existentes às cadeias locais, organizar dados de boa qualidade e proteger informações sensíveis. O resultado esperado não é o simples aumento da compra de equipamentos, mas o uso da inteligência artificial para elevar a produtividade e a complexidade da economia capixaba.
Prioridades para o Espírito Santo
1. Manter um radar geoeconômico. O acompanhamento de tarifas, sanções, fretes, barreiras técnicas e mudanças regulatórias deve gerar alertas por setor e planos de contingência. O ponto de partida é conhecer, por produto e território, a dependência de países, clientes, rotas e insumos.
2. Usar os investimentos para desenvolver fornecedores. O apoio a grandes empreendimentos deve estar associado à formação profissional, à pesquisa aplicada e à inserção competitiva de empresas capixabas nas novas cadeias. As contrapartidas precisam ser verificáveis e compatíveis com a concorrência.
3. Escolher mercados prioritários. A promoção comercial deve combinar demanda potencial, oferta capixaba, barreiras de entrada e rotas logísticas. Estratégias específicas por país tendem a produzir resultados melhores do que agendas amplas, sem definição de setores e produtos.
4. Transformar anúncios em projetos financiáveis. Estudos de demanda, licenças, receitas, garantias e matriz de riscos devem estar organizados antes da aproximação com o investidor. A carteira precisa distinguir o que está em fase inicial do que já possui condições de chegar ao fechamento financeiro.
5. Integrar logística, energia, tecnologia e formação. Novos portos, ferrovias, indústrias e centros de dados precisam ser avaliados em conjunto com a capacidade elétrica, a conectividade e a oferta de trabalhadores qualificados. O critério central deve ser o valor que permanece no Espírito Santo, e não apenas o volume movimentado ou investido.
Indicadores para acompanhar a estratégia
| Indicador | O que revela | Direção desejada |
| Participação dos dois maiores destinos nas exportações | Concentração geográfica do risco commercial | Redução gradual |
| Participação de bens processados e serviços nas vendas externas | Agregação de valor e complexidade | Elevação |
| Número de empresas exportadoras regulares | Capilaridade da internacionalização | Elevação |
| Compras locais e empregos qualificados nos grandes investimentos | Encadeamento produtivo | Elevação com metas |
| Projetos que chegam ao fechamento financeiro | Qualidade da preparação da carteira | Elevação |
| Capacidade de rede e tempo de conexão de novos empreendimentos | Prontidão energética | Mais capacidade e menor prazo |
| Adoção de IA e ganho de produtividade por cadeia | Uso econômico da tecnologia | Elevação mensurada |
Conclusão
Os cinco movimentos discutidos por Marcos Troyjo já fazem parte da realidade capixaba. A concentração do comércio em China e Estados Unidos amplia a exposição a decisões tomadas fora do país, enquanto o crescimento dos emergentes abre espaço para novos destinos. Ao mesmo tempo, a mudança nas fontes de capital e o avanço da inteligência artificial alteram os critérios pelos quais empresas e governos escolhem onde investir. O Espírito Santo reúne condições importantes para responder a esse cenário: abertura internacional, posição logística, base produtiva, continuidade do planejamento e capacidade fiscal. Ainda assim, exporta uma parcela elevada de bens básicos e depende de poucos parceiros e produtos. A capacidade de produzir desenvolvimento dependerá da qualidade dessa inserção. O Estado precisa aumentar o valor gerado localmente por suas exportações e pelos empreendimentos que recebe. Esse critério aproxima a análise geopolítica da execução do Plano ES 500 Anos e permite avaliar se a inserção externa está, de fato, aumentando produtividade, renda e capacidade de enfrentar choques.