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A democracia que fala, mas não escuta

Palavra. Escuta. Razão. Antes do voto, existe o debate. Antes da escolha, existe o exame. Antes da democracia como procedimento, existe a democracia como cultura. Uma sociedade que abandona a discussão de ideias para defender apenas lados perde mais que a elegância da conversa pública. Perde a capacidade de corrigir os próprios erros. Na Atenas clássica, a ágora não era apenas praça. Era o lugar em que política, retórica e filosofia se encontravam pela palavra. Aristóteles via o homem como…

Palavra. Escuta. Razão. Antes do voto, existe o debate. Antes da escolha, existe o exame. Antes da democracia como procedimento, existe a democracia como cultura. Uma sociedade que abandona a discussão de ideias para defender apenas lados perde mais que a elegância da conversa pública. Perde a capacidade de corrigir os próprios erros. Na Atenas clássica, a ágora não era apenas praça. Era o lugar em que política, retórica e filosofia se encontravam pela palavra. Aristóteles via o homem como animal político porque a vida comum exige mais que convivência, exige linguagem, razão e discernimento sobre o justo e o injusto. A democracia ateniense era limitada, pois excluía mulheres, escravizados e estrangeiros, mas ainda assim deixou uma lição permanente, a de que participar da cidade exigia presença, argumento e responsabilidade. A nossa ágora hoje cabe na tela. Em 2025, o Brasil reunia cerca de 183 milhões de usuários de internet, segundo o relatório Digital 2025: Brazil, do DataReportal em parceria com We Are Social e Hootsuite. Nunca tanta gente teve tanta capacidade de falar em público. O problema é que falar mais não implica deliberar melhor. As redes sociais amplificaram vozes e comprimiram a paciência. O argumento cedeu espaço ao ataque. A escuta virou sinal de fraqueza. A política tornou-se identidade de grupo. Em 2022, o NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostrou em seus estudos sobre o ciclo eleitoral daquele ano o peso dos aplicativos de mensagem, como WhatsApp e Telegram, na circulação de desinformação eleitoral. O Reuters Institute Digital News Report 2025 registrou que apenas 42% dos brasileiros confiavam nas notícias, número que reflete não só a crise da mídia, mas uma ecologia informacional em que ruído e ressentimento chegam antes da reflexão. A urna não cria sozinha o problema. Ela revela o que já estava formado. Quando a cultura pública ensina a escolher lados antes de examinar propostas, a democracia não p

Este é um resumo do artigo original publicado no site do IBEF-ES.

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