Artigo publicado como integrante do CQC de Empreendedorismo e Gestão.
Curioso: quanto mais acesso a conhecimento, tecnologia e ferramentas de evolução, mais cresce um movimento silencioso de desvalorização das conquistas. Hoje, quando alguém emagrece, logo surge a suspeita: “deve estar usando Ozempic”. Se ganha massa muscular, “é hormônio”. Se prospera financeiramente ou profissionalmente, “teve sorte” ou “teve privilégio”. Esse padrão revela um fenômeno cada vez mais comum: a ideia de que, se houve qualquer tipo de alavanca, então não houve mérito.
Essa lógica entra em conflito com um princípio básico da evolução humana. O economista Robert Solow, Nobel de 1987, demonstrou que o crescimento de longo prazo está diretamente ligado ao avanço tecnológico — ou seja, à capacidade de fazer mais com menos esforço (Solow, 1956). Progresso nunca foi sobre fazer tudo da forma mais difícil, mas da forma mais eficiente. Utilizar ferramentas não elimina esforço, apenas altera sua natureza.
No caso de medicamentos como a semaglutida, estudos publicados no New England Journal of Medicine (Wilding et al., 2021) demonstram que os melhores resultados dependem de mudança comportamental consistente. Além disso, há investimento financeiro, possíveis efeitos colaterais, acompanhamento médico e reeducação alimentar. Não se trata de ausência de esforço, mas de um esforço mais estratégico, consciente e direcionado.
No ambiente empresarial, esse mesmo fenômeno se repete. Empresas que crescem rapidamente são, com frequência, percebidas como “sortudas”, enquanto a literatura aponta o contrário. Em Good to Great (2001), Jim Collins evidencia que resultados excepcionais decorrem de disciplina estratégica e consistência ao longo do tempo. A McKinsey (2016) indica que empresas orientadas por dados têm até 23 vezes mais chances de adquirir clientes e 19 vezes mais chances de serem lucrativas. Desempenho superior raramente é acaso — é método.
Ferramentas e técnicas não eliminam o esforço, apenas o reposicionam. Se antes o desgaste estava no trabalho físico e repetitivo, hoje ele se concentra em dimensões mais complexas: disciplina, controle de impulsos, tomada de decisão e capacidade de investir antes do retorno. Desmerecer conquistas potencializadas também tem raízes psicológicas: a dissonância cognitiva – desconforto psicológico que surge quando há conflito entre crenças, atitudes e comportamentos de uma pessoa, (Festinger, 1957) reduz o desconforto interno; o viés do esforço valoriza o que parece mais difícil (Inzlicht et al., 2018) e a comparação social relativiza o mérito alheio.
Talvez seja necessário atualizar o conceito de mérito. Mérito não está em sofrer mais, mas em evoluir melhor. Não está em rejeitar ferramentas, mas em saber utilizá-las com responsabilidade. Porque, no fim, alavancas não substituem esforço — elas ampliam o resultado de quem decide utilizá-las.